Domingo, Novembro 08, 2009

Trocas




fotografia por Fátima Silveira




Poesia por Ana Marques

Troca sua alegria
por beijos de meio-dia?
Noites mal dormidas
em serenatas escondidas?

Recebe nesse silêncio
a paz que renova o seu senão.
Refazendo todos os medos
na paciência de artesão.

E por fim...

Aceita minha força
em troca do seu coração.
A necessidade desmedida
de um sonho sem interrogação.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Noite sem luz




Por Ana Marques

Eu sou feliz
todos os dias
de sol e de luz.

Mas noites existem
a lua escurece
inquieta minha alma
afugenta essa calma
meu corpo solta-se em torpor
brota da pele o suor

Nessas noites
infeliz eu me enrosco
nos lençóis que amarroto.
Noites rasgadas, insones.
demônios interiores
e o tato estremecido.

Rangem dentes, os sisos
o corpo vaga ansioso
prazeres caudalosos.
As noites sem estrelas.
Minha unha pranteia
a pele que se arranhou.

Os pés tateiam o escuro
os braços abraçam o tronco
pêlos arrepiam e roçam.
A noite perde o prumo,
os olhos esquecem o rumo.
Inteira me sinto.

Quando aponta o dia.
Inerte, desfalecida
o corpo de vida esquecida
os olhos abrem devagar.
Nem mar navega esses olhos,
nem céu sobraça o rosto.
Lá! O sol, grandioso.

Iluminada por toda a cidade.
Eu ardo. Sufoco de saudade.
Só desejo a noite sem luz.

Domingo, Outubro 25, 2009

Importância


Poesia por Ana Marques

Não são as mãos que importam
mas sentir

Sente minha pele que pulsa
pulsam vermelhas confissões
brotando suor salgado de perdas
inundação tátil de sons

Não são os olhos que importam
mas ver

Enxergar o horizonte encontrado
o saber quase salgado
o lugar perdido que sussurra
transes e transas noturnas

Não é a música que cala
mas ouvir

Escute o canto inaudível da inspiração
Murmure para que ninguém ouça
Personifique verbos e sinônimos
Perceba o sentido e se envolva

Que não é sentir, ser tátil
Que não é ver, ser visto
Que não é ouvir, ser dito

É viver, ser vivo.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Desejo


Por Ana Marques

Eu sou feliz
todos os dias
de sol e de luz.

Mas noites existem.
A lua escurece.
Inquieta minha alma,
afugenta essa calma.
Meu corpo solta-se em torpor.
Brota da pele o suor.

Nessas noites
infeliz eu me enrosco
nos lençóis que amarroto.
Noites rasgadas, insones.
Demônios interiores
e o tato estremecido.

Rangem dentes, os sisos.
O corpo vaga ansioso,
prazeres caudalosos.
Nas noites sem estrelas.
minha unha pranteia
a pele que se arranhou.

Os pés tateiam o escuro
os braços abraçam o tronco
pêlos arrepiam e roçam.
A noite se perde no escuro
os olhos esquecem o rumo.
Inteira me sinto.

Quando aponta o dia.
Inerte, desfalecida
o corpo quase sem vida
os olhos abrem devagar
nem mar navega esses olhos
nem céu sobraça o rosto.
Lá! O sol, grandioso.

Iluminada por toda a cidade.
Eu ardo. Sufoco de saudade.
Só desejo as noites sem luz.

Domingo, Setembro 27, 2009

Mar de mim

fotografia por: © PhotoAlto / SuperStock

Por Ana Marques

O que buscas
em mim,
que não encontra
em si mesmo?

Não te guardo inteiro.
Não me guardo intocada.
Destaca da minha imensidão
amada, idolatrada.

Salve! Salve!

Eus náufragos
submersos
mar adentro.

E o que não encontras
em si
não insistas
em buscar
no mar de mim.

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

Inexprimível


Por Ana Marques para Tatiana Mamede

Na coragem que vive sob o punho
cerrado
Na força que vive no peito
fechado
Na verdade que vive nos olhos
petardos

No deslumbrante observar desses movimentos
No intenso murmurar desses momentos
Na imensa descoberta do interno abismo

Mais que um coração pleno...
Uma vontade férrea,
uma sonoridade eclética.

O que és, não vejo, não te compreendo inteira,
porque és derradeira, plena, intensa.
Um ser que se abriga na imensidão.

Domingo, Maio 31, 2009

Da insistência do não.

fotografia por Matthew Antrobus

Por Persephone

Não digo. Calo
o sentimento, o pressentimento
e o vento.

Não olho. Fecho
tardes vazias, noites macias
e a vida.

Não ouço. Silencio
cordas do piano, o riso deste canto
e o instrumento.

Não emociono. Distancio
Versos teus não atingem
o âmago que em mim vive.
Isolo de ti.

Não te permito. Recuso
Tua música eu não escutaria
Teu encanto me distancia
Te repreendo de mim.

Não te divido.
Minha é a tristeza da tua partida
Minha é a dor da tua agonia
Minha é a decisão de te dizer não.

Não.

Terça-feira, Maio 05, 2009

Prisão


Por Persephone

fotografia por Stanley Martucci



Qual é a dor aprisionada neste corpo?
Solene sorriso se reflete em refrões...
Em tríplices imagens contidas
luas que se esgueiram cativas.

Qual é a verdade aprisionada neste laço?
Que não se desfaz, que não se desintegra?
Que a areia não cobre, que a onda não leva?
Vermes recusam a digestão.

Qual é o presente preso neste passado?
Que se faz de inocente, quase sem pecado.
Que se pronuncia veemente, inerte, macabro.
Vampiro diurno de sangue manchado.

Qual é a vantagem presa nesta opressão?
Opressivo momento que não vai embora
Lascivo, descrente, preciso, escória
permanente, resoluto na mesma história.

Sacode este tempo, desfaz este chão.
Liberta este vento, depreda o grilhão.
Não existe caminho que una o separado.
Colore a retina. Destrava teus passos.

E vai...

Sábado, Maio 02, 2009

Eu vi o tempo

Por Persephone / Ana Marques
fotografia por Trinette Reed



Eu vi o tempo e seus pedaços.
Horas partidas, dissolvidas
estrada granulada.

Eu vi o tempo e o meu retrato
espalhado no caminho
alterado e sombrio.

Eu vi o tempo e os percalços
as erosões de suas beiradas
ilusões delimitadas.

Eu vi o tempo e os descasos
o que ficou perdido e destronado
compreendi o fim dos reinos.

Eu vi o tempo
mas eu não via nada.

Terça-feira, Abril 21, 2009

Susan Boyle - emoção e preconceito

Ouvi falar dela, é verdade.
Na internet, em conversa de amigos, recomendações, uma chamada no Vídeo Show.

Mas nada me preparou para ver o vídeo no Youtube.

Susan Boyle é absolutamente fantástica. Extraordinária. Uma cantora que nos emociona com sua interpretação.

Alguém com a voz dela, se treinada a vida toda, ainda seria fora do comum. Se avaliarmos que ela não teve um treino para sua maravilhosa voz, que passou a vida cuidando da mãe doente e que hoje vive sozinha com um gato... Se pensarmos que ela chegou ao programa de talentos "Britains Got Talent 2009" e enfrentou o ceticismo e as risadas da platéia. Muitos riramn quando ela disse que desejava ser uma grande cantora e encarar tudo isso, sendo alguém que passou a vida isolada, exige uma grande dose de coragem. Principalmente, se olharmos no vídeo a expressão de escárnio do público e dos jurados...

Até que ela abriu a boca e cantou "I Dreamed A Dream" de "Los Miserables".

Mais que um fenômeno, Susan Boyle é um tapa na cara.
Daqueles tapas que nos fazem chorar.
De vergonha e de emoção.

Para verem o vídeo de Susan Boyle, basta clicar aqui

Talvez você chore.
Eu chorei.

Domingo, Abril 19, 2009

Sentidos da Cidade



por Persephone / Ana Marques


Olho ruas, calçadas, becos
imagens que se diluem na água
algum rio passou por aqui
vida que se espalha
e abraça a cidade.

Ouço verdes folhas contra o vento
lenços que se perdem das mãos
algum adeus esteve aqui
ruídos de uma paisagem
que envolve a cidade.

Sinto mares, maresias, marolas
desenhando-se nas ondas
alguma areia voou aqui
e se misturou à calçada
que identifica a cidade.

Provo o ar que enche pulmões
sinto sabor de sonhos, fracassos
algum dissabor temperou aquis
e agregou ao gosto
que relembra a cidade.

Cheiro montanhas salpicadas de luz
brilhando em violetas e rosas na terra
algum perfume permeou aqui
e suavizou toda a dor que encerra
e aprisiona a cidade.

Segunda-feira, Abril 13, 2009

Perdão

fotografia por Betsie Van der Meer

Por Persephone / Ana Marques

Sou teu sonho esquecido
nos idos dos anos
que foram fortes
que foram jovens
que foram.

Que eu tenha sido em vão...
perdôo.
Que eu tenha vivido em estrelas...
perdôo.

Que tenhas me esculpido em pedra,
me pintado na tela
e da matéria ter exilado a emoção...

perdôo não.

Quarta-feira, Abril 01, 2009

Para Brasília


Por Persephone / Ana Marques

Houve muito adeus esses dias...
disse adeus a cada cômodo do meu apartamento
disse adeus à cidade que me acolheu e me desafiou
disse adeus à cidade que aprendi a amar.

Dei adeus à uma segurança, mesmo que fictícia, em andar pelas ruas com bolsas abanando.
Dei adeus à paisagem da minha janela, ao sol que descia vermelho no horizonte, ao vento que criava redemoinhos, à lua enorme que apontava no horizonte. Dei adeus à brisa, à seca, à chuva, à terra vermelha.
O cerrado assistiu meus adeus, testemunhou minhas lágrimas, presenciou a dor que me acudiu.

Deixo Brasília, não sem dor, mas possuidora de mais lembranças do que gosto de admitir.Deixo em Brasília parte de mim, um pedaço fincou raízes e se recusou a partir.

Então parto... já partida.

Há oito anos, quando deixei Sampa, não tinha consciência da dor que esse tipo de separação poderia causar.

Dor?
O que era isso mesmo?

Aprendi em Brasília a sentir saudade. A me sentir sozinha. A ficar triste e não ter onde caminhar. A olhar em volta e não ver ou ter ninguém. Aprendi que nada conhecia da vastidão de mim.
E aprendi a mudar isso.

Criei uma nova vida. Compreendi os meandros de suas plantas secas, de suas árvores retorcidas, de seus ipês floridos sem fim, do aroma da dama da noite, das cachoeiras perdidas em chapadas maravilhosamente inconcebíveis, das luas que tem o sorriso do gato de Alice. Aprendi como criar vida a partir de uma gota de água.

Mesmo que essa água fosse salgada. Mesmo que a água fosse uma lágrima.
Mesmo que a água secasse ao tocar o chão.

Meu corpo se fortaleceu. Minha alma acendeu sua chama divina. Meu espírito reconheceu a si mesmo. Meu ser reconheceu seus iguais, os irmãos e irmãs em coração, e afastou seus diferentes.
Criei laços. Finquei raízes. Apurei minha intuição. Meu sentido de preservação voltou a existir e a coexistir comigo.
Tudo isso, vivi em Brasília.

E a tudo isso, percorrendo o último apartamento em que vivi nessa cidade, dei adeus.
Chorei, confesso.
Vivenciei de novo o que me trouxe até ela: toda luta, esperança, força e tristeza... aos quais também dei adeus. Vi passar tais fantasmas pelos meus olhos marejados.
E vendo o vapor prateado daqueles seres etéreos criados pela minha melancolia, acenei novo adeus a eles, me despedindo de toda dor que vivi aqui.

Temi pelo futuro em alguns momentos dessa contemplação.
Temi que a parte deixada no planalto central fosse imensa demais. Forte demais. Profunda demais.

E olhei para cima.

O mesmo céu que me acalentava em Brasília, me veria em qualquer lugar onde eu fosse viver.
As mesmas estrelas brilhariam em meus olhos.
A mesma lua acenaria sua beleza sem precendentes.

Só que agora o mar me espera.

Fique em paz meu tempo em Brasília. É tempo de renovação.

Dei adeus, enfim.

Sábado, Fevereiro 21, 2009

Indivisível

foto por win-initiative

Por Persephone/Ana Marques

Você não me conhece.
Pare de olhar
minha vida invisível.

Você não me adivinha
na brisa que canta
a ira divina.

Minha vida, luz instável,
inefável, não a agarrará.
Jubileu no horizonte.

Você não me conhece.
Pare de olhar
minha vida indivisível.

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

Sentido

Por Persephone / Ana Marques
Um passo de cada vez.
Um sonho, um ponto
de interrogação.


Que sentido
nos trouxe de volta
nessa direção?

Qual passado, que futuro
calçou esse caminho?
Pontilhou essa história?

Ouço sua voz
que me chama
eu vou.


Sem sentidos.
Sem perguntas
eu vou.