terça-feira, junho 13, 2006


Letra: ferida exposta ao tempo
Affonso Romano de Sant’Anna


É forçoso dizer que me faz falta
o poema que existe e nunca li,
como se alhures
brotassem coisas que não vi
e que distantes,
carentes,
dependessem de mim.
Algo como se o intocado fosse a sinfonia
inacabada, mais: rasgada
como o quadro nunca esboçado, perdido
na abatida mão do artista.

O ausente
é uma planta
que na distância se arvora
e é tão presente
quanto o passado que aflora.

E a literatura, mais que avenida ou praça
por onde cavalga a glória, é um
monumento,
sim, de dúbia estória: granito e rima,
alegoria ao vento, lugar onde carentes
e arrogantes
cravamos nosso nome de turista:
— estive aqui, desamado,
riscando a pedra e o tempo
expondo meu sangue e nome
com o coração trespassado.

Fonte: www.secrel.com.br/jpoesia

Interpretação: Escolher um arcano, quando normalmente escolho Arcanos Maiores, é quase um desafio. Esse poema fala do imaginado e ainda não tocado, daquilo que se vê ao horizonte, sem que no horizonte se consiga chegar. Aqui, por mais estranho que possa parecer, é o Oito de Copas que dá o ar de sua graça. Com seus volteios, com sua imaginação, com a ilusão que faz parte de tudo que ainda não sabemos exatamente como é... é o oito de copas que vêm traduzir o poema sobre a poesia que não foi lida, sobre a emoção que ainda não foi sentida e do qual se sente saudade por perceber o que ainda podemos sentir.