segunda-feira, maio 17, 2010

duO

Imagem: Karonj

Ele: Não me contes teus segredos. Sabê-los destrói toda a genialidade de te amar.

Ela: Meus segredos jamais desvendados, como saberás do amor que devoto? Viverás no escuro?

Ele: Percebo-te não pelo que dizes em palavras, mas pelo que a alma da íris teima em esconder.

Ela: Nada direi. Verás minh´alma nos desvãos das minhas mãos. Ouvirás meus anseios nos olhos que te brilham. Leia-me.

Ele: Ler-te-ei pelos delírios escritos à pele.

Ela: Que o tato torne-se teus novos olhos, teus dedos percorram a minha vida. Eis a via dupla do amor declarado: poderei ler-te também?

Ele: Traduzirei meu sânscrito para fazer-me entendível. Farei quórum à pele e aos olhos.

Ela: Deixa eu sussurrar verdades em tua retina. Farei-me clara e límpida, e mergulharás nos segredos que vivem nas profundezas.

Ele: O profundo é tão abstrato que sofrerá variações dentro da mesma retina. Prefiro-te pela fotografia do agora.

Ela: Do amor criei caminho, nele a fotografia desbotaria. Não há atalhos ou imagens que me possam traduzir. Toque-me: sou tradução de mim.

Ele: Se o traduzo parece assim tão permeável, dizer que 'te amo' seria uma ofensa óbvia?

Ela: Reunir beijos abandonando frio que a distância encerra. Mares revoltos a domar pedra fria. Terás coragem para desistir das máscaras?

Ele: Ao passo que o frio se constitui fica mais perto o sentir verdadeiro.

Ela: Então mascara teus receios, que eles não interfiram. E da máscara do desejo traduziremos o que sentimos.

Ele: Onde há frio há o amor em pedra. Prefiro o tempero quente e o beijo ardente em coalizão.

Ela: O sentir é profundo porque mútuo. Estamos conectados na ânsia de encontrar mãos reais onde hoje existe apenas imaginação.


Duo: Ana Marques e Rodolfo Lima.