segunda-feira, maio 15, 2006

Censura NÃO!

Observei a discussão que em alguns fóruns se formou a partir do tópico "Sexo Sujo" e achei deveras interessante. É sempre curioso notar como as pessoas não entenderam meu protesto, nem as minhas razões.

Não estou protestando como pagã, ou como anti-cristã (por mais que tentem me impingir esse título). Não me interessa em nada a religião nesse caso, exceto que ela funcionou como agente censurador fora dos domínios ao qual ela pertence. Que os clérigos queiram impedir seus fiéis de ver uma exposição, ler um livro ou ver um filme, é problema deles. Impedir a livre expressão artística e, principalmente, o acesso a cultura baseado em valores que são absolutamente válidos apenas para aqueles que pertencem a essa religião é outra coisa bem diferente.


Da mesma forma que a liberdade de culto é preservada, a liberdade de expressão e de pensamento também. Um objeto de arte, seja qual for a natureza dele, visa a contestação, a criação de um símbolo, visa questionar valores e criar novos. Não seria um objeto de arte se não expressasse sua cultura, e a questionasse, retratasse e (inclusive) modificasse utilizando meios próprios. As artes vêm exercendo esse papel através dos tempos, sendo muitas vezes mal vistas, mal interpretadas e até sendo consideradas de mau gosto ou grosseiras. Tudo que questiona o establishment costuma provocar fortes reações contrárias. A arte costuma ser subversiva, contestadora e inquieta por natureza. É isso que faz da arte a arte. Não é ser bela, não é ser esteticamente agradável, é ser um símbolo da cultura onde está inserida.

Sendo assim, meu protesto - do qual não retiro uma única linha porque é a expressão do meu pensamento e do meu sentimento - é esse: contra a censura. Censurar um objeto de arte ou uma exposição inteira tem consequências igualmente nefastas. Dá poder de veto a uma religião, coisa que num estado laico não deveria estar nas mãos de nenhuma (religião). Quem se sente ofendido, deve procurar a justiça e exigir o que acredita ser seu direito, agora exigir a censura se trata de uma manobra vil por querer impor a todos o que é válido apenas para alguns. Márcia X. em momento algum vilipendiou (tornar vil, humilhar, segundo o dicionário) um objeto religioso, ela o utilizou para expressar uma idéia sobre a sexualidade e o sentimento religioso. Suscitar a discussão é para lá de saudável. Que quisessem discutir, criar fóruns, falar mal da Márcia, dizer que sua obra é uma porcaria... num estado livre, isso é perfeitamente esperado e absolutamente natural. Agora impedir que a obra seja vista por dogmas exclusivos de uma religião é absolutamente indecente. Impedir o pensamento, censurar a contestação e extirpar a arte é uma atitude covarde.

Eis o meu protesto. Protesto como cidadã apreciadora da arte. Protesto porque fui censurada de exercer meu direito de ver o que bem entender. Protesto porque essas milícias medrosas estão agindo para tentar impedir que eu veja filmes, que eu leia livros, que eu pense como pessoa independente. E tudo isso, sendo que nem mesmo eu pertenço a religião alguma! Sinto-me sim, privada da minha liberdade, do meu direito, da suposta igualdade que prega a consituição.

E contra isso, eu mantenho o meu protesto.

sexta-feira, maio 05, 2006

Sexo sujo

O sexo só pode ser sujo.

Não existe justificativa melhor do que essa...

Se não o sexo, os orgãos sexuais são partes sujas dos seres humanos. Talvez fosse interessante considerar a idéia de começar a extirpar tanto os pênis quanto as vaginas que existem por aí. Talvez assim as autoridades religiosas se dessem por satisfeitas, porque além de extirpar a capacidade de pensar e agir livremente de seus "fiéis", agora deseja extirpar também o direito de todos de verem uma exposição - ou uma das peças - porque acredita que a mesma ofende sua crença.

A exposição "Erótica - Os sentidos da arte", que deveria estar chegando à Brasília, foi cancelada. Além dos prejuízos financeiros para o CCBB - que pessoalmente eu agora quero que se exploda - existem os prejuízos que os apreciadores da arte em Brasília estão sofrendo. E tudo por causa da falsa moralidade cristã e da necessidade que esses religiosos têm de controlar a tudo e a todos, fazendo de suas contas bancárias nojentas um meio de impor sua vontade ridícula.

Não é somente triste. É revoltante.

Não é uma vitória para a organização Opus Christi, por mais que eles se gabem disso. É uma vitória da ignorância em cima da liberdade de expressão. É um outdoor defendendo que orgãos sexuais são impuros, sujos, indecentes. É um retrocesso na liberdade duramente conquistada. E tudo isso usando como arma o capital em si. É uma "bateção de pé" idiota, infantil e egoísta.

O Banco do Brasil nunca esteve nem aí para a disseminação da cultura, mas sim para a abertura de contas e mais contas, e a cobrança de taxas e mais taxas. Agora, com essa decisão absurda, mostra claramente a que veio e a quantas anda a independência do CCBB. Não interessa a arte, se ela - de alguma forma - fere os interesses e as suscetibilidades dos fanáticos que possuem conta no BB.

Sinto-me indignada.
Gostaria que a comunidade cristã se mobilizasse assim para que houvesse mais justiça social, uma educação de qualidade, uma melhor distribuição de renda. Mas o que interessa para uma religião que vive da ignorância e da miséria, que esse estado de coisas seja alterado? Quem precisaria de justiça divina, se a justiça terrena funcionasse?

Seja como for, sei que temos fome de arte.
E infelizmente, se as coisas começarem a correr desse modo, morreremos todos de fome enquanto o BB enche os bancos de dinheiro e esvazia de arte o CCBB, e os fiéis cristãos da Opus Christi enchem as suas bocas escancaradas de hóstia.