sexta-feira, outubro 27, 2006

Play it again, Jango!

Por Ivana Bentes

Morri no exílio, na província Argentina de Corrientes, em 6 de dezembro de 1976, sozinho, vítima de ataque cardíaco, numa fazenda da fronteira. Tentava voltar para o Brasil, de onde me expulsaram com o Golpe Militar depois que anunciei, no dia 13 de março de 1964 num comício para 150 mil pessoas na Central do Brasil que iria fazer a Reforma Agrária, Urbana, as reformas na Educação, a Reforma Eleitoral, Tributária...

Não deixaram fazer nada e me derrubaram! As forças mais conservadoras da sociedade Brasileira se uniram e foram convocadas a me depor, toda a imprensa ficou contra mim. Esse já era o terceiro golpe midiático-militar, botaram a classe média horrorizada na rua, as senhoras da TFP, editoriais alarmistas e moralistas, páginas e páginas de jornais, rádio, TV. Assustaram todos até que cai no dia 1º de abril de 1964.

Não adiantou, estou de volta! Não sei como, só sei que eu João Jango Goulart, ex-presidente deposto, retornei, é dia de eleição e estou concorrendo de novo para Presidente do Brasil. Mudei de partido. Estou grisalho, perdi um dedo da mão (onde?) e me dou conta que as forças que me derrubaram em 1964 estão quase todas aí. Continuo com apoio popular, estou com enorme vantagem nas pesquisas, mas por que os jornais dos últimos meses são todos contra mim e meu partido? Estou sendo de novo linchado? Em 64 diziam que eu ia implantar o Comunismo no Brasil e agora que estou implantando a Corrupção em Pindorama!

Meu assessor me informa que vamos assistir a fita com o meu debate na Televisão. Estou reconhecendo o pessoal da pesada de 64. Então tenho uma visão exata de quem eu sou e o que represento no Brasil de 2006, me vendo pelos olhos dos meus inquisidores. Roda o VT. Não, dá um play. Play it again, Jango! Ouço, e então presente, passado e futuro se dobram na tela da TV.

Entrevistador e dono de uma empresa de TV.
_ Senhor Presidente, de todas as reformas que o senhor propôs, uma é a mais perigosa de todas, é um acinte aos empresários da Comunicação, de Rádio e TV. Sr. Presidente, o senhor tentou entrar na nossa caixa preta, regular nossas empresas com uma Agência. Nos somos contra, Sr. Presidente! Onde já se viu? Deu está dado! Não queremos ninguém novo no negócio. Canal de TV pra Ong, pra Universidade, pra favela? Eles não precisam de nada disso e ainda fazem uns vídeos que são umas porcarias. Qualidade temos nós com essa imagem plastificada, atrizes esticadas digitalmente, programas incitando à delação. Eles a gente emprega pra figuração, usa para vender celular e fazer propaganda da nossa diversidade cultural. Os pobres tem estilo, são vibe, hiper, mob, servem pra vender quinquilharia e show. Mas dar canal de TV pra essa gente, Presidente?

Jango: Eu tenho um ministro da cultura que é músico e negro e quer botar ilha de edição, câmeras de vídeo e internet de graça por onde der. É o início da Reforma da Cultura, da Educação, da Comunicação, junto com o Fundeb, o Fundo para a Educação, que eu criei lá em 62, e reeditamos agora. Por que ninguém fala do FUNDEB?! Eu tenho orgulho de estar implantando o Fundeb!! As cotas no Brasil! Estou botando os negros e os pobres dentro da Universidade. Temos que acabar o vestibular, tornar o acesso universal. Além disso eu criei o Bolsa Família, tirando um contingente da miséria, é a maior transferência de renda já feita nesse país. Eu apoio o MST, os Sem-Terto! Me deixem fazer as Reformas! As novas e aquelas, que vocês abortaram em 64!

Professor-Doutor-Pesquisador
_Desculpe, sr. Presidente. Eu fiz mestrado com bolsa Capes, doutorado com bolsa sanduíche em Paris VIII, CNPQ, e tive bolsa de pós-doutorado em Oxford. Meus alunos têm bolsa de iniciação artística, científica, extensão... Mas eu sou CONTRA a Bolsa Família!!! É assistencialismo dar R$ 50 (é muito, acostuma mal) para pobre. Populismo, sr. Presidente! Minhas bolsas eu ganhei todas por mérito. MÉRITO! E olhe que sou bolsista há 10 anos! Deus me livre perder minha bolsa!

Antropóloga, antes de entrar na roda de debate.
_ Ô diretor, chama um negro ai para aparecer no programa, mas tem que ser contra as cotas. A gente é branco, professor-doutor, não vale. É pro povo entender que é uma merda, que eles tem que entrar para a Universidade sozinhos, por mérito, se não vai cair o nível da universidade. Botar um antropólogo branco, louro de olhos azuis falando mal das cotas não vale, vão cair de pau na gente. Tem que ser negro falando mal das conquistas dos negros.

Diretor de TV
_Você sabe, a gente detona as cotas diariamente nos editoriais, colunas, manchetes, mas nas novelas tem que ser a garota negra com o galã branco. Botamos na tela uns negros limpinhos, bonitos, cheios de dignidade. Provamos que eles vão vencer sozinhos. COTA pra que? Nunca fomos racistas! Querem criar o racismo no Brasil, senhor presidente, O senhor está muito mal assessorado nessa área. Aliás, não vai ter cota para negros em empresas de TV, vai? Deus me livre! Não dá pra fazer Escrava Isaura no Leblon.

Entrevistador-cronista-consultor
_Senhor Candidato, o senhor está na frente das pesquisas, mas como esse povo ignorante, desdentado, feio, pode decidir por mim? EU que frequentava o Palácio do Planalto, que era amigo e confidente do sociólogo, seu cronista-conselheiro. EU que sou especialista em pornografia política. Achei que poderia ser de direita mas escrever genialmente como o Nelson , mas não tenho esse talento. Estou aqui me olhando na TV e só vejo um publicitário mal sucedido, porque o MEU candidato a presidência vai perder as eleições e meus amigos vão ficar fora do poder. Sou a encarnação das forças do ressentimento. Pelo menos sou psicanalizado, me acho um crápula, mas tudo bem. Os empresários me pagam 10, 20 mil por palestra ou consultoria para EU anunciar o Apocalipse. Não tenho o que perguntar só queria dizer olhando bem na sua cara. Eu te odeio, Sr. Presidente e morrerei escrevendo contra tudo o que o senhor significa (baba).

Apresentadora de TV.
Então Sr Jango, depois de ouvir isso tudo sobre o seu governo, o que significará a sua reeleição?

Jango: “O triunfo da beleza e da justiça”. E não me chamem mais de Jango, o ex-presidente morreu, no golpe de 64, exilado na fronteira, em 1974. O novo presidente nasceu das crises que vocês criaram, tentando me derrubar , uma duas, três, quantas vezes? Não estou mais só, em 2006, tenho 55% das intenções de votos, atingi o coração do Brasil, sou uma radicalização da democracia. Meu nome é Muitos. Sou uma potência da Multidão.

Ivana Bentes, diretora da Escola de Comunicação (ECO/UFRJ), produziu um texto em que elegeu um antigo presidente da República, já morto, que, de volta, comenta os fatos políticos de agora. O escolhido foi Jango. Leia e confira na editoria “Painel de Argumentos”, pois qualquer semelhança não é mera coincidência.

Esse texto era para ter saído na Folha de São Paulo, em 1o. de outubro de 2006, mas foi recusado devido a estar fora de foco.

fonte: http://www.olharvirtual.ufrj.br/2006/index.php?id_edicao=134&id_tp=3&codigo=06_10_05
Observação: Encontrei esse texto após ler o blog de Mino Carta, da revista Carta Capital. Acessem: http://www.cartacapital.com.br

sexta-feira, outubro 13, 2006

A César Maia: Alckmin NÃO!

por Louise Caroline

Na última terça-feira, este Blog do Noblat publicou artigo do Prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, cujo conteúdo analisa a desmobilização política nas Universidades brasileiras nestas eleições de 2006. César Maia identifica os sintomas, erra o diagnóstico.

Segundo o Prefeito, a apatia universitária deve-se à “frustração com o PT de onde vinham os grupos estudantis de esquerda mais animados, antes”. E é débito do Partido dos Trabalhadores “com a democracia brasileira e a formação política de tantos jovens”.

Primeiro, é um ato falho de César Maia atribuir ao PT a responsabilidade da participação política e da esperança dos jovens brasileiros.

É ato falho e é superficial. As lutas estudantis existem desde que existem estudantes e sua intensidade se dá, como tudo na História, de acordo com a conjuntura social, econômica e ideológica de seu período.

As Universidades têm menor visibilidade no cenário político atual porque foram transformadas de espaço de debates em peças do mercado; de formadoras e produtoras de conhecimento em emissoras de diplomas e produtoras de mãos-de-obra; de espaço público em instrumentos de ascensão social restrita a uma minoria.

A participação em Centros Acadêmicos e Diretórios Centrais dos Estudantes é menos valorizada porque a militância no movimento estudantil exige um sentimento de coletividade e despreendimento dos interesses individuais que têm sido destruídos pelo pensamento egoísta e competitivo que hegemoniza nosso mundo.

César Maia acerta ao localizar na queda do Muro de Berlim a diminuição da radicalidade na ação juvenil. Mas não avalia que a hegemonia do pensamento neoliberal, sem fortes empecilhos no mundo, criou uma geração movida a consumo, a valores estrangeiros, à vitória pessoal, ao desejo existencial de ingressar no mercado de trabalho e ganhar cada vez mais dinheiro, mesmo que para isso tenha de se transformar em uma mercadoria nesse - perceba-se a redundância, mercado.

E o que a Universidade faz, e não só ela, mas toda a formação educacional baseada no pensamento neoliberal, é justamente reproduzir tais valores, restringir a formação à técnica. Os currículos são cada vez mais enxutos, mais específicos. A convivência universitária, os restaurantes, a produção cultural foram esvaziados por gente que tem cada vez menos tempo a perder com o que não seja essencial para a aprovação no concurso desejado.

Apesar disso, equivoca-se novamente o Prefeito César Maia, provavelmente pela distância que tem sua ação política do assunto sobre o qual ele escolheu falar, ao considerar inexistente a militância estudantil brasileira. Contra a corrente organizam-se em entidades estudantis milhares em todos os estados do país. E todos eles são da opinião de que a desmobilização nas universidades tem como causa relevante as ações neoliberais implantadas pela direita brasileira nos governos de Fernando Henrique Cardoso e por governos neoliberais em todo o mundo.

Destaque-se a abertura indiscriminada da Educação Superior à iniciativa privada que fez com que FHC entregasse seu mandato com 89,1% de instituições privadas e apenas 10% dos jovens com acesso à Universidade. Ou, ainda, a criação do “Provão” que estabeleceu entre as universidades a competição de “qual a melhor dentre as piores” e deflagrou a mercantilização absoluta da Educação Superior, com propagandas, promoções e testes de admissão mais semelhantes à venda de eletrodomésticos.

É por isso que dentre os que resistem aos preconceitos de militar no movimento estudantil em plena era da excelência-acadêmica-nas-notas-da-prova, existe o consenso de que Geraldo Alckmin representa o retrocesso para a Universidade Pública e para a educação no Brasil. Porque enquanto FHC criou apenas uma universidade em seus oito anos, Lula criou quatro novas Federais, transformou sete faculdades em universidades e expandiu quarenta e três campi pelo interior do país. Criou o PROUNI, cuja maior virtude é elevar a voz para a certeza de que a Universidade é espaço para todos e não para os favorecidos. Enviou ao Congresso Nacional o FUNDEB, que aumentará em nove vezes os recursos para a Educação Básica.

Ao contrário do que pensam os simpáticos à avaliação de César Maia, a União Nacional dos Estudantes reuniu em seu último Congresso quinze mil estudantes representantes de quase todas as Instituições de Educação Superior do país, e, no mês de Abril, decidiu suas ações com cerca de três mil Centros e Diretórios Acadêmicos organizados em todos os estados brasileiros.
A UNE não é formada por petistas. Em sua diretoria há militantes das mais diversas correntes de opinião das universidades brasileiras. Obviamente, como o Prefeito mesmo atesta, é grandiosa a participação das forças de esquerda, porque é com a luta da esquerda que se relaciona o movimento estudantil em todos os tempos. Há petistas, há comunistas, há socialistas. Até o PFL lançou chapa com o PSDB no último Congresso e elegeu seus representantes na UNE. Mas a entidade defende, sobretudo, o interesse dos estudantes que estão organizados nas entidades locais, que a alimentam de opiniões e decidem quais caminhos a UNE percorrerá.

E, por consenso, essa diretoria plural aprovou em sua última reunião executiva, mesmo sem saber dos clamores que viriam de César Maia pela mobilização universitária nas eleições 2006, eclodir no país a campanha “Alckmin, NÃO”, para convocar os estudantes brasileiros a barrar a volta da direita, detentora dos mais firmes propósitos de manter a Universidade como uma reprodutora de certezas, espaço de tecnicismo, vazia de cidadania e de coletividade.

Não deve ser no tom das manifestações desejadas por César Maia, mas para construir as opiniões estudantis há que respeitá-las e estar do lado delas quando do enfrentamento diário das flores com os canhões.

Em tempo: os materiais da campanha “Alckmin, NÃO” estão disponíveis no site www.une.org.br

Louise CarolineVice-Presidente da UNE
louiseune@gmail.com