sexta-feira, outubro 13, 2006

A César Maia: Alckmin NÃO!

por Louise Caroline

Na última terça-feira, este Blog do Noblat publicou artigo do Prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, cujo conteúdo analisa a desmobilização política nas Universidades brasileiras nestas eleições de 2006. César Maia identifica os sintomas, erra o diagnóstico.

Segundo o Prefeito, a apatia universitária deve-se à “frustração com o PT de onde vinham os grupos estudantis de esquerda mais animados, antes”. E é débito do Partido dos Trabalhadores “com a democracia brasileira e a formação política de tantos jovens”.

Primeiro, é um ato falho de César Maia atribuir ao PT a responsabilidade da participação política e da esperança dos jovens brasileiros.

É ato falho e é superficial. As lutas estudantis existem desde que existem estudantes e sua intensidade se dá, como tudo na História, de acordo com a conjuntura social, econômica e ideológica de seu período.

As Universidades têm menor visibilidade no cenário político atual porque foram transformadas de espaço de debates em peças do mercado; de formadoras e produtoras de conhecimento em emissoras de diplomas e produtoras de mãos-de-obra; de espaço público em instrumentos de ascensão social restrita a uma minoria.

A participação em Centros Acadêmicos e Diretórios Centrais dos Estudantes é menos valorizada porque a militância no movimento estudantil exige um sentimento de coletividade e despreendimento dos interesses individuais que têm sido destruídos pelo pensamento egoísta e competitivo que hegemoniza nosso mundo.

César Maia acerta ao localizar na queda do Muro de Berlim a diminuição da radicalidade na ação juvenil. Mas não avalia que a hegemonia do pensamento neoliberal, sem fortes empecilhos no mundo, criou uma geração movida a consumo, a valores estrangeiros, à vitória pessoal, ao desejo existencial de ingressar no mercado de trabalho e ganhar cada vez mais dinheiro, mesmo que para isso tenha de se transformar em uma mercadoria nesse - perceba-se a redundância, mercado.

E o que a Universidade faz, e não só ela, mas toda a formação educacional baseada no pensamento neoliberal, é justamente reproduzir tais valores, restringir a formação à técnica. Os currículos são cada vez mais enxutos, mais específicos. A convivência universitária, os restaurantes, a produção cultural foram esvaziados por gente que tem cada vez menos tempo a perder com o que não seja essencial para a aprovação no concurso desejado.

Apesar disso, equivoca-se novamente o Prefeito César Maia, provavelmente pela distância que tem sua ação política do assunto sobre o qual ele escolheu falar, ao considerar inexistente a militância estudantil brasileira. Contra a corrente organizam-se em entidades estudantis milhares em todos os estados do país. E todos eles são da opinião de que a desmobilização nas universidades tem como causa relevante as ações neoliberais implantadas pela direita brasileira nos governos de Fernando Henrique Cardoso e por governos neoliberais em todo o mundo.

Destaque-se a abertura indiscriminada da Educação Superior à iniciativa privada que fez com que FHC entregasse seu mandato com 89,1% de instituições privadas e apenas 10% dos jovens com acesso à Universidade. Ou, ainda, a criação do “Provão” que estabeleceu entre as universidades a competição de “qual a melhor dentre as piores” e deflagrou a mercantilização absoluta da Educação Superior, com propagandas, promoções e testes de admissão mais semelhantes à venda de eletrodomésticos.

É por isso que dentre os que resistem aos preconceitos de militar no movimento estudantil em plena era da excelência-acadêmica-nas-notas-da-prova, existe o consenso de que Geraldo Alckmin representa o retrocesso para a Universidade Pública e para a educação no Brasil. Porque enquanto FHC criou apenas uma universidade em seus oito anos, Lula criou quatro novas Federais, transformou sete faculdades em universidades e expandiu quarenta e três campi pelo interior do país. Criou o PROUNI, cuja maior virtude é elevar a voz para a certeza de que a Universidade é espaço para todos e não para os favorecidos. Enviou ao Congresso Nacional o FUNDEB, que aumentará em nove vezes os recursos para a Educação Básica.

Ao contrário do que pensam os simpáticos à avaliação de César Maia, a União Nacional dos Estudantes reuniu em seu último Congresso quinze mil estudantes representantes de quase todas as Instituições de Educação Superior do país, e, no mês de Abril, decidiu suas ações com cerca de três mil Centros e Diretórios Acadêmicos organizados em todos os estados brasileiros.
A UNE não é formada por petistas. Em sua diretoria há militantes das mais diversas correntes de opinião das universidades brasileiras. Obviamente, como o Prefeito mesmo atesta, é grandiosa a participação das forças de esquerda, porque é com a luta da esquerda que se relaciona o movimento estudantil em todos os tempos. Há petistas, há comunistas, há socialistas. Até o PFL lançou chapa com o PSDB no último Congresso e elegeu seus representantes na UNE. Mas a entidade defende, sobretudo, o interesse dos estudantes que estão organizados nas entidades locais, que a alimentam de opiniões e decidem quais caminhos a UNE percorrerá.

E, por consenso, essa diretoria plural aprovou em sua última reunião executiva, mesmo sem saber dos clamores que viriam de César Maia pela mobilização universitária nas eleições 2006, eclodir no país a campanha “Alckmin, NÃO”, para convocar os estudantes brasileiros a barrar a volta da direita, detentora dos mais firmes propósitos de manter a Universidade como uma reprodutora de certezas, espaço de tecnicismo, vazia de cidadania e de coletividade.

Não deve ser no tom das manifestações desejadas por César Maia, mas para construir as opiniões estudantis há que respeitá-las e estar do lado delas quando do enfrentamento diário das flores com os canhões.

Em tempo: os materiais da campanha “Alckmin, NÃO” estão disponíveis no site www.une.org.br

Louise CarolineVice-Presidente da UNE
louiseune@gmail.com

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