quinta-feira, abril 27, 2006

Moça com brinco de pérola




Algumas pinturas nos despertam interesse, admiração, encantamento.

Mas poucas causaram, pelo menos em mim, tal impressão de suavidade mesclada a um agradável mistério quanto a pintura intitulada Moça com brinco de pérola, do holandês Johannes Veermer.

Bela, de uma tristeza quase sedutora, parece convidar à apreciação. É fácil passar horas olhando a perfeição do brilho que a pérola emite, que os olhos instigam, que a boca insinua. Vejo claramente, aqui, que a sensualidade pode ser completamente inocente e sugerir apenas que existe a possibilidade de, mas sem deixar nada claro.

O quadro me fascina.

Só não sei dizer se o fascínio que eu sinto foi criado a partir do filme, que eu vi antes de conhecer o quadro, ou se o filme me inspirou tanto enlevo porque me apaixonei pela pintura.


Baseado no livro de Tracy Chevalier, que por sua vez o criou inspirada no mistério que ronda a identidade da moça que posou para Veermer nesse quadro e na sua expressão dúbia e enigmática, o filme é singular. O roteiro primoroso respeitou a essência da história criada no livro, e alçou vôos além da cena típica de Hollywood. Em vez de vermos o típico drama em que uma criada é seduzida pelo patrão (e pelo seu mundo), encontramos o diálogo artístico entre duas pessoas que se compreendem através do mundo das cores. Griet, uma criada que posteriormente se tornará inspiração para Veermer, é capaz de enxergar além do branco das nuvens e perceber o cinza, o amarelo e o azul. Muitas cenas se dão com diálogos curtos entre os dois, como se pela arte eles conseguissem se entender e se comunicar, como quando Griet retira uma cadeira que fazia parte do cenário de uma das pinturas de Veermer e ao ser questionada responde apenas "Não parecia certo".

O mais fantástico porém é o respeito com que os personagens são tratados. Em vez de ser jogada na cama do pintor, Griet escolhe seus caminhos e (muitas vezes) se desvia das falsas acusações. Veermer não se torna um caçador desenfreado de mocinhas para enfeitar a sua cama e seus quadros, sendo tratado no filme como um artista cheio de criatividade, sensibilidade e... (não poderia faltar) problemas.

Por fim - filme, livro e a pintura - são bálsamos para mim. Todos eles estão repletos de luz e sensibilidade. E em dias de censura à arte (como no caso da atriz performática Márcia X no CCBB) e de uma renovada mediocridade social e política, poder ver o belo assim tão bem representado chega a ser um grande alívio.

2 escritos:

Anônimo disse...

Análise maravilhosa.

Anônimo disse...

Eu também me impressionei muito com o filme, minha esposa pinta quadros a óleo e às vezes leio alguma coisa a respeito dos grandes nomes da arte, mas sem qualquer preocupação a detalhes. Mas esse filme me fez parar prá pensar que realmente pessoas assim são diferentes dos demais pois enxergam a vida de forma diferente. Fascinante também a atuação de Scarlett Johansson, me apaixonei por ela.

Marcelo