quarta-feira, agosto 16, 2006

Mulher, apenas.

O que existe nas mulheres - na sua educação, na imposição social, na família que a criou - que faz dela uma pessoa que a priori não pode exibir uma personalidade própria? Explico: vejo com uma frequência assustadora perfis no orkut em que mulheres se definem pelo seu papel em relação aos outros: mãe, filha, esposa e, as vezes, profissional. Quantas vezes vejo mulheres respondendo sobre os filhos, o marido, o trabalho, qualquer coisa, quando perguntadas como estão, a única coisa sobre a qual não costumam falar é sobre si mesmas. Sonhos, aspirações, desejos, medos e glórias pertencem ao mundo do apoio que elas oferecem aos outros, da dedicação com que cuidam daqueles que estão sob sua guarda.

Um filho que fracassa, é a mãe que fracassou. Um filho doente, é a mãe que descuidou. Um marido sacana que trai a mulher, é ela que não consegue manter o interesse dele. Um pai doente, é a filha que não cuidou dele direito quando precisou. Se o marido recebe promoção nos confins do Judas, a mulher que deve largar tudo para acompanhá-lo, porém raramente o inverso ocorre. É a velha história dos elogios que recebemos: esposa amada, boa mãe, filha dedicada.

As vezes, preferia ouvir qualquer outra coisa, desde que na frente viesse simplesmente a palavra mulher.

Porque no fim das contas, antes de ser qualquer um dos papéis que escolhi para minha vida, sou mulher. Todas somos mulheres. Não somos grandes mulheres por trás de grandes homens, somos mulheres apenas, grandes ou pequenas. Porque homem que é homem não precisa de nenhuma mulher por trás de si para ser grande. Mulher que é mulher não precisa estar atrás de um homem para ser grande. No máximo, eles podem estar juntos, porque grandeza se atrai.

Por isso, quando me encontrarem, perguntem de mim.

E se eu responder dos meus filhos ou do marido (já que em nenhum momento eu disse aqui que escapo completamente do comportamento padrão), por favor, me dêem uma bronca.

Porque eu mereço.

Mereço bronca por esquecer de mim. E porque eu mereço lembrar de mim.

Lembrar que eu sou Ana. E que antes de qualquer rótulo, sou mulher.

3 escritos:

Elora disse...

Sim Ana, você é uma mulher magnífica. Antes de ser qualquer outra coisa, você é você mesma. Me sinto honrada por te conhecer, mesmo que virtualmente. Uma mulher forte, de fibra e... além de tudo isso mãe coruja, esposa apaixonada...rsrs... Sorte deles. Você é realmente uma pessoa especial. Bjos.

Janaína disse...

Boa, Aninha!
Chega de conjugar o verbo "ser" a partir dos outros. Parabéns pelo blogue: tá lindo e muito bem escrito, na forma e no conteúdo.
Beijo e admiração sempre,
J.

Malhado disse...

Não, não merece bronca.

Não é porque está no sangue e na educação secular das mulheres a predisposição ao cuidar que isso seja algo ruim.

Não é.

Somos o que somos devido ao cuidado que de vocês recebemos, mas o essencial está em dosar o cuidado para jamais esquecermos de que nós, filhos, maridos ou homens, somos responsáveis pelas pegadas que deixamos em nossos próprios caminhos.

Cabe a nós não nos escorar em vocês e a vocês não nos prender quando é tempo de caminhar por nossos próprios pés.

o homem é um ser extremamente mecânico em seus atos, e somos treinados desde pequenos, também. Treinados a prover, a defender, a focar a visão em prioridades que visem a sobrevivência dos nossos. Mas sem vocês não seríamos capazes de olhar para o mundo como algo amplo, e sim um apanhado de experiências pontuais às quais muitos sequer teriam sensibilidade para comparar.

Quando falar dos teus, fale com orgulho, não por de ti dependerem, mas porque são contigo,e graças a ti, têm uma visão mais ampla do mundo que enfrentarão.

E jamais esqueça-se dos seus momentos, onde suas próprias pegadas devem estar desacompanhadas no caminho.