quarta-feira, março 12, 2008

Não te falo mais nada.

Não te falo mais nada. Meu corpo não tem espaço para tanta pancada e meu fígado já falha da raiva que eu guardo. Não tenho voz para te acusar, não tenho sangue para me defender. Vivo dos desvios, às vezes rápidos e às vezes lentos, dos tapas que evito e às vezes apanho. Meu corpo sacode no ar, não de alegria e nem de gozo, sacode apenas da surra que me espera ao final de cada dia ruim.

Que vida é essa? A igreja e o padre não respondem. Resigno a mim mesma em orações que não faço. Não vou mais a missa, não acredito em mais nada, e dia a dia a vida segue sem cessar.

E não cessa a pancada, que às vezes chega aos filhos. Filhos esses que também não param de chegar.

Chega.

A odisséia remonta o espetáculo. Retoma o palco e lá vou eu. É mais longa a sessão de porrada e quase por nada eu durmo no chão. O sangue se espalha, eu limpo, cansada, vou passando o pano no chão.

Não te falo mais nada. A boca não abre de tão inchada, os dentes já moles reclamam dentista, comida, dignidade e um pouco de paz. Não tenho mesmo para onde ir, os dentes mesmo que caiam não sujam o chão e me deixo ficar quieta e parada esperando o próximo dia, de paz ou de cão.

E o cão late de fome, crianças desnutridas choram no meu ouvido, o estômago dói de tão vazio. A fome chega de todos os lados, mas a comida faz tempo parou de chegar.

Chega.

Não te falo mais nada. Meu corpo vazio é surrado ao extremo. O coito que agüento não é interrompido e todas as noites tenho de suportar. Seu corpo invade, estupra, machuca. Teu beijo nojento invade minha vida, tua mão suja explora e sacia uma sede de domínio que não posso entender. Entrego a honra que não existe, que vantagem teria em dizer “não”? Tanta pancada, pra quê? Toma essa carne, satisfazer sua fome é a minha função.

Mais uma noite e mais um dia, você me toma em qualquer lugar. Criança que vê, silencia e aprende: cale esse grito, segura esse choro e abre as pernas para o braço não descer. Para teu prazer meu corpo moído não chega, mas prazer para mim há muito parou de chegar.

Chega.

Não te falo mais nada.
Seis tiros no teu peito, também não quero te ouvir.
Crianças na rua, orfanato, abrigo, casa dos avós.
Não te falo mais nada e nem vou te ouvir. Você já era.
Me deu tanta porrada, te dei seis tiros no peito. Eles calaram teus gritos, as tuas ofensas, a dor, a fome e a humilhação.
Se a dor já chega, junto com teu fim, de qualquer jeito essa dor nunca parou de chegar.

Então chega o fim.

2 escritos:

Igor Thiago disse...

Eu não tenho intelecto pra compreender estes textos =D
Mas eu leio e admiro kkk
Beijos

Nana Lopes disse...

Pesado...
Mas tem seu valor!!