sábado, março 15, 2008

Paixão 800x600

por Ana Marques

Houve um tempo em que se conheciam. Foi nas coincidências da vida, ou melhor, da Internet que o primeiro e-mail se cruzou. Houve identificação, mas cada um deles - imersos que estavam em sua própria vida - apenas pressentiram o que estaria por vir.Um dia, entre conversas no chat, e-mails e troca de idéias, trocaram fotos. Olharam nos olhos parados da tela, e se apaixonaram: paixão em 800 x 600. Dias depois combinaram de se ver.

Ela foi esperá-lo, pois ele vinha de longe. A Internet tem dessas, não escolhe distância entre amantes.

Ele ainda não podia vê-la, e pôde apreciá-lo de longe: ar cansado, sorriso de expectativa, óculos e o violão. Ele estava todo de preto, claro. Ficou olhando para ele, e soube que naquele momento sua vida havia mudado. Depois de alguns minutos, deixou que ele a visse e foi ao seu encontro. A paixão, já desencadeada, floresceu: encontros, partidas, telefonemas diários, conversas via computador. Valia qualquer recurso para matar a saudade e conhecer um pouco mais do outro.

Porém, ninguém queria realmente conhecer ninguém. Paixão idealizada tem sabor de perfeição, de chocolate que derrete na boca e a gente finge que não tem calorias. Dessa forma, foram inventando, criando, colocando um no outro qualidades que não sabiam se existiam. Defeitos e brigas eram imaginados, a distância vencida no primeiro encontro favorecia o crescimento da ilusão. A ilusão cresceu forte, o amor também.

Um dia, esse par de Eros e Psiquê, acendeu a vela e viram-se um ao outro. Dia a dia essa vela começou a revelar o que nenhum dos dois queria ver, podia ver, sabia ver: suas limitações, belezas e travessuras. As pequenas rabugices foram crescendo... tal fermento agindo em massa no forno quente fez crescer e quase derramar. Não se podia apagar a luz, nem havia como esquecer o que se tinha visto: o estado anterior de ingenuidade fora perdido. Aos poucos foram se afastando e, tudo que antes os unia agora era motivo de separação. Tristeza travestiu-se de comodismo para poder segurar a onda gigantesca que assolava os olhos de cada um. A areia nos olhos os cegava, impedindo-os de ver o que existia e o que podia ser feito.

Partiu-se o laço.
Dor e tristeza foram companheiras por muito tempo, a negação delas também.

No entanto, com a dor veio o aprendizado: seguindo a trilha de Psiquê, ambos cumpriram tarefas e desceram aos infernos em busca do segredo da beleza. A beleza que, se aberta, poderia fazer adormecer e penetrar no interior deles mesmos, fazendo-os perceber que era a ilusão que se havia quebrado quando a luz se fez. Eles não tinham perdido um ao outro, tinham se encontrado. Mas tão confusos ficaram com a diferença entre a imaginação e a realidade, que se afastaram cada vez mais, em busca de uma ilusão que os levaria à solidão. Foi preciso descer aos infernos e conhecer seus meandros para que pudessem voltar a se encontrar.

Se encontraram novamente.

Ele estava todo de preto, claro. Ficou olhando para ele, e soube que naquele momento sua vida havia mudado...

4 escritos:

Nath. disse...

sempreee muda

;)

Flavitcho disse...

A gente precisa se encontrar pra poder encontrar os outros.

Gostei.

E ele todo de preto, claro.

Taynara disse...

A paixão pela internet é exatamente assim: cria-se uma perfeição que não existe.
É quase como amores platônicos, que são perfeitos simplesmente por seres a ilusão de um solitário...
Mto bom o texto!! :)

Thiago disse...

Passei por tudo isso ultimamente. Você escreve lindamente. E, realmente, fiquei super emocionado.

Gernericamente, não paro pra ler textos grandes, mas você claramente me cativou e virei fã.

(os -mente eu usei pra brincar mesmo!)
beijoos