quinta-feira, março 06, 2008

Um quinhão de prazer

por Ana Marques - em 21/03/2005

No quinhão que ele trazia, Luiza encontrava alguns segredos. Eram sempre segredos de amor o que ele lhe contava. Alguns ela entendia, outros adivinhava.Como no dia em que ele lhe trouxe um quinhão de bombons, ou aquele do quinhão de risadas. Mas bom mesmo foi o dia do quinhão de beijos, vários e espalhados pelo corpo, alguns causando cócegas, outros arrepios. Ela entendeu bem, mas não soube colocar em palavras. Apenas espiou cuidadosa para ninguém ver, e saboreou cada um deles.

Luiza era muito nova ainda: trabalhava e estudava. Pegava duas horas de conduções entre um e outro, sempre de pé e sempre apertada. Longo caminho até o seu posto diário. Longo caminho até a escola. E depois de lições, sono controlado e alguns trabalhos, longo caminho até em casa. Mas ela não reclamava. Tinha tempo que procurava esconder o brilho nos olhos, muito cedo aprendeu sobrea inveja e decidiu não dar colher de chá para essa atravessada! Pois abaixava os olhos e escondia o quinhão que a esperava no sábado: havia sempre um quinhão de prazer nos segredos descobertos.

Luiza não contava os segredos a ninguém, porque eles pertenciam apenas aos dois. E, ademais, os outros não entenderiam. Como explicar o quinhão de carinho para a mãe seca de dor? Como contar do quinhão de ansiedade para o pai que nada mais ansiava? Como fazer entender o quinhão de sentimentos desencontrados para a irmã já casada e que nunca confidenciou quinhão algum a ela? Não... eles nada entenderiam dos quinhões que o namorado lhe trazia, já olhavam com desconfiança suas visitas, que dirá se soubessem da alegria que isso lhe dava! Antes o silêncio, e ela estava acostumada a ficar quieta mesmo.

Um dia, o quinhão de sangue não veio. O namorado também não trouxe mais quinhão algum. Luiza se viu só, com toda a responsabilidade perante a família. Houve o quinhão de ofensas, de lamúrias, de descaso. Luiza aguentou todos, um por um: era seu quinhão de dor. Sentiu, viveu, aguentou. E veio o último quinhão que o namorado lhe deixou: um quinhão de choro, a quem Luiza deu o nome de Joaquim.

Bem, não era quinhão, mas o final do nome bem lembrava o romance de Luiza.

obs: estou sem tempo para escrever algo novo aqui e nunca tinha publicado essa crônica, resolvi inagurá-la. :)

3 escritos:

Salvador Lucas­ disse...

Muito boa a crônica, aproveitando que eu estou estudando crônicas, li essa. E digo novamente, muito boa!

thelastnights disse...

Parabéns.
Me encantei pelo seu blog.

:]

squirrel disse...

Nossa que lindo o texto,ficou maravilhosa essa crônica,muito boa mesmo


bjs