segunda-feira, abril 21, 2008

O Eu lírico, diálogos e vozes

Exercício da Oficina de Poesia (Portal Liberal) - Aula 2.

1) Um EU todo retorcido: Faça um poema em que você escreva seu nome próprio, como nos inúmeros exemplos aqui mostrados. Tente observar se ao escrevê-lo você está apresentando uma abordagem auto-crítica ou auto-celebratória, auto-piedosa ou cruel, ou seja, se está vendo o seu nome sob um prisma olímpico ou da inviabilidade.

2) Poema em vozes: Vale aqui soltar a imaginação. Escreva diálogos que ouviu na rua ou invente diálogos do modo que achar melhor... Não há nenhum problema se você quiser escrever até uma mini-peça (de no máximo duas páginas).

O poeta e dramaturgo alemão Heiner Müller tem vários trabalhos que ficam numa região indecidível entre o poema e o drama, como esse aqui, tão curto quanto belo:

PEÇA CORAÇÃO
Um- Posso pôr meu coração a seus pés.
Dois- Se não sujar meu chão.
Um- Meu coração é limpo.
Dois- É o que veremos.
Um- Eu não consigo tirar.
Dois- Você quer que eu ajude?
Um- Se não incomodar.
Dois- É um prazer para mim. Eu também não consigo tirar.
Um- (Chora)
Dois- Vou operar e tirar para você. Para quê que eu tenho um canivete. Vamos dar um jeito já. Trabalhar e não desesperar. Pronto – aqui está. Mas isto é um tijolo. Seu coração é um tijolo.
Um- Mas ele bate por você.
(Tradução de Marcos Renaux)

3) Monólogo dramático: Escolha um desses personagens abaixo citados e faça-o falar no poema:
CAPITU
RASKOLNIKOFF
SUPER-HOMEM
WOLVERINE
JOANA D'ARC
BRECHT
CHE GUEVARA
CARMEM MIRANDA
HAMLET
___________________________________________________________________

Bom, fiz a poesia do eu-lírico meio retorcido, diálogos e dar vozes à personagens. Não escolhi, exercitei todos. Poesia é isso também, exercício.

1)
Ana Cláudia. Muito prazer.
Não pergunte o restante do nome. Pra quê?
Anacláudia está bom, demais.
Mais que isso, é demais.
Demais, eu vou embora.
Não percebes a hora em que falas demais?

2)
Escolha (diálogo)

- Quero ver-te sozinha.
- Sozinha, por quê?
- Porque me irritas...
- Irritas-te comigo? Que fiz?
- Fez que tu existes e lembro...
- Lembro algo? Incomodo?
- Incomoda lembrar que te perdi.
- Perdeste. Fizeste uma escolha.
- Escolha? Que escolha deu-me a vida?
- A vida sabe. Ela nos deixa escolher.
- Escolher o que? Não pude.
- Não pôde. Eu perdoei. Esqueci.
- Esqueceste? Mas eu não esqueço.
- Não esqueces por quê?
- Porque poderia ser lindo.
- Lindo é o momento de hoje. Vai viver.
- Viver o que? Desperdicei tudo quando não te escolhi.
- Mas escolheste. Agora vive com tua escolha, ou...
- Ou...?
- Ou escolhe de novo.
- De novo? O que posso escolher agora?
- Agora escolha a mim.
- Não posso.
- Não pode? Por quê?
- Porque a vida me fez assim. Covarde.
- Covarde...! Então parte.
- Partir? Para onde?
- Para onde quiseres. Mas me deixa...
- Deixar-te? Como? Tu és minha vida.
- Vida? Pode ser... Mas não sou tua escolha.

3)
Diálogo de Capitu na solidão de Bentinho.

Sou inocente.
Dessa dor lembrarei.
Sou inocente,
repetirei.
Ouve?
Oh, Bentinho. Ouve-me.
Não magoa. Ouve-me!
Não julgas, veja!
Meus olhos ressacados
sempre foram teu respaldo.
Teu encanto amigo.
Bentinho!
Não me mandes embora.
Viverei à tua sombra.
A sombra da desonra
que não mereço.
Estás sozinho...
Bentinho...
Sou inocente.

1 escritos:

Anônimo disse...

Acho que vou fazer essa oficina também! :)

Parabéns!

Giane.