quarta-feira, abril 01, 2009

Para Brasília


Por Persephone / Ana Marques

Houve muito adeus esses dias...
disse adeus a cada cômodo do meu apartamento
disse adeus à cidade que me acolheu e me desafiou
disse adeus à cidade que aprendi a amar.

Dei adeus à uma segurança, mesmo que fictícia, em andar pelas ruas com bolsas abanando.
Dei adeus à paisagem da minha janela, ao sol que descia vermelho no horizonte, ao vento que criava redemoinhos, à lua enorme que apontava no horizonte. Dei adeus à brisa, à seca, à chuva, à terra vermelha.
O cerrado assistiu meus adeus, testemunhou minhas lágrimas, presenciou a dor que me acudiu.

Deixo Brasília, não sem dor, mas possuidora de mais lembranças do que gosto de admitir.Deixo em Brasília parte de mim, um pedaço fincou raízes e se recusou a partir.

Então parto... já partida.

Há oito anos, quando deixei Sampa, não tinha consciência da dor que esse tipo de separação poderia causar.

Dor?
O que era isso mesmo?

Aprendi em Brasília a sentir saudade. A me sentir sozinha. A ficar triste e não ter onde caminhar. A olhar em volta e não ver ou ter ninguém. Aprendi que nada conhecia da vastidão de mim.
E aprendi a mudar isso.

Criei uma nova vida. Compreendi os meandros de suas plantas secas, de suas árvores retorcidas, de seus ipês floridos sem fim, do aroma da dama da noite, das cachoeiras perdidas em chapadas maravilhosamente inconcebíveis, das luas que tem o sorriso do gato de Alice. Aprendi como criar vida a partir de uma gota de água.

Mesmo que essa água fosse salgada. Mesmo que a água fosse uma lágrima.
Mesmo que a água secasse ao tocar o chão.

Meu corpo se fortaleceu. Minha alma acendeu sua chama divina. Meu espírito reconheceu a si mesmo. Meu ser reconheceu seus iguais, os irmãos e irmãs em coração, e afastou seus diferentes.
Criei laços. Finquei raízes. Apurei minha intuição. Meu sentido de preservação voltou a existir e a coexistir comigo.
Tudo isso, vivi em Brasília.

E a tudo isso, percorrendo o último apartamento em que vivi nessa cidade, dei adeus.
Chorei, confesso.
Vivenciei de novo o que me trouxe até ela: toda luta, esperança, força e tristeza... aos quais também dei adeus. Vi passar tais fantasmas pelos meus olhos marejados.
E vendo o vapor prateado daqueles seres etéreos criados pela minha melancolia, acenei novo adeus a eles, me despedindo de toda dor que vivi aqui.

Temi pelo futuro em alguns momentos dessa contemplação.
Temi que a parte deixada no planalto central fosse imensa demais. Forte demais. Profunda demais.

E olhei para cima.

O mesmo céu que me acalentava em Brasília, me veria em qualquer lugar onde eu fosse viver.
As mesmas estrelas brilhariam em meus olhos.
A mesma lua acenaria sua beleza sem precendentes.

Só que agora o mar me espera.

Fique em paz meu tempo em Brasília. É tempo de renovação.

Dei adeus, enfim.

4 escritos:

Nika disse...

Houve uma despedida triste, mas como disse um amigo, não foi para sempre!!!

Te adoro amiga!

Persephone / Ana Marques disse...

Ohhhhh Nika, mais linda... Mas ainda dói dum tanto...
beijos minha amiga.

Thamar disse...

Tem muito tempo que conheci, numa lista de discussão, uma moça que se chamava ciganinha...Tem algum tempo que conheci uma moça linda chamada Ana que no meu telefone era Duarte, virou Marques; que se auto-chama Persephone, bruxa, fada, dragão...Tem muito tempo que a admiro meio de longe por muitos motivos que nós duas conhecemos, ou não...Mas lendo este texto sobre a "minha" cidade tive absoluta certeza de algo que sempre suspeitei: em algum momento tivemos a mesma alma!
Volte sempre que sentir saudades, nós que amamos vc, inclusive a cidade, a aguardamos com a mesma imensa saudades com que vc partiu! beijos, linda!

Persephone disse...

Thamar mais que linda. Obrigada pela doçura, levo vocês comigo aonde eu for.