sábado, dezembro 31, 2011

Marcas passadas



Seriam essas as marcas?
As marcas de um monstro,
riscado nas veias e no rosto,
transbordante em mim?

E o que mais transbordaria?
O quê deveria existir?

Seriam esses esgotos,
retalhos do que restou?
Evidências do suposto crime,
da defesa que criei?

Defesa que me escapa.
Réu de quem me tornei?

O sangue que se espalha
[ainda posso ver as marcas!]
arrastado pelo chão
pingando em vãos. E vão.

Vão secar no tempo que passa.
E passaria.

Não era para ser assim?

Pudesse eu ser diferente
em ponto mostraria uma vírgula.
Uma piada, e ela não rimaria.
...destoaria dos lábios, presos na Poesia.

Que graça teria?
E era para ter graça?

Ah...

Sangue que marca o caminho
De outros, outros tantos...
Líquido derramado de pranto vermelho
relaxados, ritmados, obscenos.

Insistem em existir.
Mas algum dia, eu não fui assim?

Suspiraria todo um dia
pela chance de não ser marcada 
da alegria de não ser pequena.
Enxergar a dor, onde vejo um drama

Sutil, pueril. Onde está a força?
Vêem chama e vejo futilidade.

Onde foi, todos os Deuses me ouçam,
onde foi que perdi a sensibilidade?
Onde ficou o dormente umbigo 
centro do meu prazer, juiz do meu brio?

Incapaz de ver a mim!
Mas seria meu juízo, quem mais me veria?

Ah...

Não. Nada há para assistir.
A televisão fechou as cortinas essa noite.
E meus olhos apagaram as luzes do sotão.
As marcas se vão.

Os gatos pardos na noite merecem seu requiém
As corujas tem suas patas vazias.
E árvores balançam com a ventania.
Vou ali, onde posso ser a alma da minha vida.

Sozinha.

1 escritos:

Denis disse...

Olá.

Marcas passadas... que muitas vezes, insistem em não passar.
Ainda mais na madrugada... no silêncio da noite e no escuro do quarto.

Belo texto, Ana... gostei muitão.

Parabéns e uma boa tarde.

Morpheus, do Coven Alkatheia