terça-feira, abril 21, 2009

Susan Boyle - emoção e preconceito

Ouvi falar dela, é verdade.
Na internet, em conversa de amigos, recomendações, uma chamada no Vídeo Show.

Mas nada me preparou para ver o vídeo no Youtube.

Susan Boyle é absolutamente fantástica. Extraordinária. Uma cantora que nos emociona com sua interpretação.

Alguém com a voz dela, se treinada a vida toda, ainda seria fora do comum. Se avaliarmos que ela não teve um treino para sua maravilhosa voz, que passou a vida cuidando da mãe doente e que hoje vive sozinha com um gato... Se pensarmos que ela chegou ao programa de talentos "Britains Got Talent 2009" e enfrentou o ceticismo e as risadas da platéia. Muitos riramn quando ela disse que desejava ser uma grande cantora e encarar tudo isso, sendo alguém que passou a vida isolada, exige uma grande dose de coragem. Principalmente, se olharmos no vídeo a expressão de escárnio do público e dos jurados...

Até que ela abriu a boca e cantou "I Dreamed A Dream" de "Los Miserables".

Mais que um fenômeno, Susan Boyle é um tapa na cara.
Daqueles tapas que nos fazem chorar.
De vergonha e de emoção.

Para verem o vídeo de Susan Boyle, basta clicar aqui

Talvez você chore.
Eu chorei.

domingo, abril 19, 2009

Sentidos da Cidade



por Persephone / Ana Marques


Olho ruas, calçadas, becos
imagens que se diluem na água
algum rio passou por aqui
vida que se espalha
e abraça a cidade.

Ouço verdes folhas contra o vento
lenços que se perdem das mãos
algum adeus esteve aqui
ruídos de uma paisagem
que envolve a cidade.

Sinto mares, maresias, marolas
desenhando-se nas ondas
alguma areia voou aqui
e se misturou à calçada
que identifica a cidade.

Provo o ar que enche pulmões
sinto sabor de sonhos, fracassos
algum dissabor temperou aquis
e agregou ao gosto
que relembra a cidade.

Cheiro montanhas salpicadas de luz
brilhando em violetas e rosas na terra
algum perfume permeou aqui
e suavizou toda a dor que encerra
e aprisiona a cidade.

segunda-feira, abril 13, 2009

Perdão

fotografia por Betsie Van der Meer

Por Persephone / Ana Marques

Sou teu sonho esquecido
nos idos dos anos
que foram fortes
que foram jovens
que foram.

Que eu tenha sido em vão...
perdôo.
Que eu tenha vivido em estrelas...
perdôo.

Que tenhas me esculpido em pedra,
me pintado na tela
e da matéria ter exilado a emoção...

perdôo não.

quarta-feira, abril 01, 2009

Para Brasília


Por Persephone / Ana Marques

Houve muito adeus esses dias...
disse adeus a cada cômodo do meu apartamento
disse adeus à cidade que me acolheu e me desafiou
disse adeus à cidade que aprendi a amar.

Dei adeus à uma segurança, mesmo que fictícia, em andar pelas ruas com bolsas abanando.
Dei adeus à paisagem da minha janela, ao sol que descia vermelho no horizonte, ao vento que criava redemoinhos, à lua enorme que apontava no horizonte. Dei adeus à brisa, à seca, à chuva, à terra vermelha.
O cerrado assistiu meus adeus, testemunhou minhas lágrimas, presenciou a dor que me acudiu.

Deixo Brasília, não sem dor, mas possuidora de mais lembranças do que gosto de admitir.Deixo em Brasília parte de mim, um pedaço fincou raízes e se recusou a partir.

Então parto... já partida.

Há oito anos, quando deixei Sampa, não tinha consciência da dor que esse tipo de separação poderia causar.

Dor?
O que era isso mesmo?

Aprendi em Brasília a sentir saudade. A me sentir sozinha. A ficar triste e não ter onde caminhar. A olhar em volta e não ver ou ter ninguém. Aprendi que nada conhecia da vastidão de mim.
E aprendi a mudar isso.

Criei uma nova vida. Compreendi os meandros de suas plantas secas, de suas árvores retorcidas, de seus ipês floridos sem fim, do aroma da dama da noite, das cachoeiras perdidas em chapadas maravilhosamente inconcebíveis, das luas que tem o sorriso do gato de Alice. Aprendi como criar vida a partir de uma gota de água.

Mesmo que essa água fosse salgada. Mesmo que a água fosse uma lágrima.
Mesmo que a água secasse ao tocar o chão.

Meu corpo se fortaleceu. Minha alma acendeu sua chama divina. Meu espírito reconheceu a si mesmo. Meu ser reconheceu seus iguais, os irmãos e irmãs em coração, e afastou seus diferentes.
Criei laços. Finquei raízes. Apurei minha intuição. Meu sentido de preservação voltou a existir e a coexistir comigo.
Tudo isso, vivi em Brasília.

E a tudo isso, percorrendo o último apartamento em que vivi nessa cidade, dei adeus.
Chorei, confesso.
Vivenciei de novo o que me trouxe até ela: toda luta, esperança, força e tristeza... aos quais também dei adeus. Vi passar tais fantasmas pelos meus olhos marejados.
E vendo o vapor prateado daqueles seres etéreos criados pela minha melancolia, acenei novo adeus a eles, me despedindo de toda dor que vivi aqui.

Temi pelo futuro em alguns momentos dessa contemplação.
Temi que a parte deixada no planalto central fosse imensa demais. Forte demais. Profunda demais.

E olhei para cima.

O mesmo céu que me acalentava em Brasília, me veria em qualquer lugar onde eu fosse viver.
As mesmas estrelas brilhariam em meus olhos.
A mesma lua acenaria sua beleza sem precendentes.

Só que agora o mar me espera.

Fique em paz meu tempo em Brasília. É tempo de renovação.

Dei adeus, enfim.