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Eternidade

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Não peças promessas, meu amor. Não somos eternos. E o nosso tempo aqui  é apenas um átimo. Um segundo. Um suspiro. Não queiras a eternidade que eterna é apenas a inconstância das vidas que desaparecem  ao soprar de uma vela. Desdobre-se, meu amor que o tempo (infinito) irá fundir-se em nós dois. E no vasto instante (em que isso acontecer) seremos tudo do pó  que de nós restou.

Perfeitos, por Ana Marques

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...e se mesmo perfeitos Não ficássemos juntos? E toda a alegria Fosse passageira? E se mesmo nos encontrando A gente se perdesse? E esquecesse da importância De se reencontrar? Virássemos esquinas Trilhando distâncias Entrando em neblinas Desejos distópicos para silenciar E se a gente se afastasse, apenas por não saber que tinha outro jeito? E que ficar juntos Seria perfeito? Arte: Patmai

Não te falo mais nada, por Ana Marques

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Não te falo mais nada. Meu corpo não tem espaço para tanta pancada e meu fígado já falha da raiva que eu guardo. Não tenho voz para te acusar, não tenho sangue para me defender. Vivo dos desvios – às vezes rápidos e às vezes lentos – dos tapas que voam para todo lugar. Meu corpo sacode no ar, não é de alegria ou gozo. Sacode da surra que me espera ao final de um dia ruim. Que vida é esta? A igreja não responde. Resigno a mim mesma em orações que não faço. Não vou mais à igreja, não acredito em mais nada e dia a dia a vida segue sem cessar. Não cessam os socos, que às vezes chegam aos filhos. Filhos estes que também não param de chegar. Chega! Não te falo mais nada. A odisseia remonta o espetáculo. Retoma o palco e lá vou eu. É mais longa a sessão de porrada e quase por nada eu durmo no chão. O sangue se espalha, eu limpo e cansada, vou passando o pano no chão. A boca não abre de tão inchada, os dentes já moles reclamam dentista, comida, dignidade e um pouco de paz. Não tenho mesmo para...

Montanha russa, por Ana Marques

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Sai. Não aguento mais olhar a depressão presente. Quer me ajudar de verdade? Mais um comprimido  que o efeito contínuo é o que alivia. ... e se não quer me dopar (de novo) devolve a bebida conhaque, uísque ou pinga Tanto faz. Se nem isso é permitido me deixa sozinho eu não quero olhar para mim nem para você. Sai. *** Vem. Estou com saudade dos namoros, viagens e danças. Foram tantas! Vamos sair para comemorar? Tocar violão na praia fechar os bares dormir ao relento viver a vida o dia inteiro... *** Sai, amor. Não há vida nesta vida. Não há retorno. Nem há sonho.  Me deixe em paz. *** (de comprimidos  ele encheu o corpo e o espírito  e na montanha russa  subiu  descendo ao infinito.  Nem começo, ou fim  ele está preso  sem entrar ou sair  de mundo nenhum) Imagem: Freepik

A Bailarina

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"Olá, querido. O que faz aqui?" "Oi, como a senhora está?" Ela se animou visivelmente enquanto tagarelava. "Quer um beijo? Ah, mas você é tão jovem para ficar admirando uma mulher mais velha como eu! Que tal um autógrafo? Sou casada, sabe? E com um belo homem, muito inteligente e muito, mas muito ciumento. Me desculpe não corresponder a sua admiração, desculpe..." Ela sorriu para o espelho e o rosto fortemente maquiado sorriu de volta. Levantou-se e ensaiou passos de dança. Sem qualquer aviso, desabou na cadeira, como se estivesse muito cansada, e desatou a falar: "Dancei tantas vezes no teatro. A vida era boa, sabe? Meu coração se enchia de alegria com os movimentos e a admiração das pessoas. Eu era requestada, era amada! Nunca houve ninguém como eu. A pele tão bonita, o rosto formoso, o cabelo por todas copiado. Já te disse que meu marido era muito ciumento? Ele nunca me deixava sozinha! Aliás, onde será que ele está agora? O que será que aconteceu ...

Decisão, por Ana Marques

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Está decidido. Meu amor, eu aceito o teu pedido. A aliança, o véu, o altar. Me vestirei de santa para te alucinar. Vou beirar o branco e inspirar os teus dias, adornar o colo de pérolas e ser a concha dos teus segredos. E no cheiro de café ronronarei as tuas manhãs, esfregarei a pele em ti e brilharei os olhos em ares malvados apenas para te divertir. Eu aceito e te digo sim. Digo que contigo me casarei. Meu amor, esse meu imediatismo não me permite negar e por isso a resposta é "sim". Eu desejo o auge, a paixão e estar aconchegada em teus braços. Quero os dias de afagos, a alegria e o apego. Quero dançar contigo e, ao teu lado, ver vídeos em preguiçosos domingos sem fim. Quero-te ao meu lado, mesmo sabendo que é fato a existência de um prazo para terminar. Pode dizer a todos que te escolhi. E planto com o meu amor a semente de certeza, de que o tempo corroerá deste sentimento a beleza. Sei que a vida não nos perdoará a ousadia, de querer preencher com paixão os nossos dias. ...

Sonho, por Ana Marques

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Sonhei, como só deviam sonhar os poetas. E amei você em todos os sonhos, como somente os sem esperança podem amar. De amor e de sonhos alimentei o meu abandono, o raiar dos dias sem luz, o anoitecer, já tão escuro, da minha existência. Sonhei, sim. Poder mover a mão, que não te alcançava tocar a pele que brilhava e quase dizia-me "sim". Mas entre sonos e dores tão vívidos, lembrar tua face era meu remédio. [quase um vício!] Mantinha-me presa a essa vida. [que vida?] Aceitava a sopa, às colheradas. Amava o banho, o sol, a vida regrada. Amava até mesmo um exame qualquer que o trazia para mim. Sonhei, sim. lá fora, no corredor, em voz baixa ele fala de mim. da moça inválida, quase sem vida, que não reage a nada. e fala do encontro, seu novo alvoroço, a nova paixão. volta sorridente para mim, a moça senil, sem sentimentos, sem vontade aparente. Sonhei, como só deviam sonhar os poetas. E amei você nesses sonhos, como somente os que nada tem a perder podem amar. imagem:  Prabuddha ...

Limbo

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Não destoa meu verbo eu estou o inverso o medo nos dedos que acendem o cachimbo e o limbo em que eu vivo não há suspeita de que a vida é alheia ao meu peito que dói (a barriga inchada de vida irrigada implora por vida. que vida?) Acendo outro pito retorno ao universo em que não existo. E a barriga que mexe se perde na fumaça que habito. imagem: Freepik

Devolva-me, por Ana Marques

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Eu a via seguir por estradas insones. Correr de um lado para o outro, sem que nenhuma de suas palavras fizesse sentido para mim. Ela segurava flores imaginárias e soltava as borboletas que estavam presas no miolo amarelo. Acenava alegremente a noite que descia, chorava ensandecida para o dia que a iluminava. Ela vivia de trevas e odiava a luz. Suas refeições eram escuras e seus soluços infinitos. Ela me assustava. Sua voz sorria no escuro e eu ria junto. Nunca sabia se devia correr ou me esconder. Seus braços me envolviam e apertavam: o mundo lá fora era um lugar perigoso para nós . As vezes, aqueles mesmos braços me torciam e sufocavam: o mundo lá dentro tornava-se perigoso para mim . Ela recitava poemas sem sentido e contava histórias incríveis. Pintava borrões e eu podia ver a beleza nas suas tintas no fundo branco. Cantava alto quando estava triste, cantava alto quando estava feliz. Eu não conseguia alcançar a sua voz ou o seu espírito. E assim sempre me sentia sozinha. As vozes q...

Pisciana, por Ana Marques

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... engana-se quem pensa que sou peixe fora d'água. meu canto é mar  minha natureza é esparsa  e se sorrisos tristes espalham-se pelo caminho  é que trago o coração de todos comigo  e parte do amor que me faz compreender ...  são sonhos tolos que vivem na minha fantasia  como tolos são todos os sonhos e os loucos,  e os que ficam roucos de tanta vida  e se partidas partiram a veia inteira  é que o abismo é chão, a queda é trincheira  e o infinito nutre a intensa cura e o terno pesar Engana-se, amiga, se acredita que esqueci minha origem  nada eu esqueço, nada eu deixo, nada é a minha estrada  tudo mora e se alimenta de mim ...  e se os portais se abrem quando eu passo  é que a senha é o meu sangue, meu suor, meu cansaço  meu DNA destilado está imerso nessas fronteiras  Nas esferas distraídas que compõe meus Universos  ainda é o meu coração de tinta, minha escrita, o meu verso  que traduz o que eu ...

Destruição, por Ana Marques

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Eu fui até o fim dos tempos e o ar desolado seguia-me incessante. Não havia descanso. Não havia parada. Apenas a minha mão dizendo que o fim tinha chegado, que o começo era esperado. E que tudo ia mudar, de novo. Fui até o começo dos tempos buscar o nascimento do mundo. Mas não havia mundo, não havia sonho, não havia sequer o desespero. O começo era apenas o nada, a possibilidade e a solidão. Segui passos que ouvia. Cantei melodias. Corri esferas inimagináveis para compreender a criação. ... mas me brotava dores dos dedos. Quando eu sonhava na realidade tinha pesadelos. E eram todos cor e sons. Todos os rostos que eu criava eram figuras mortas, macabras. Eram apenas traços do futuro que não ia vingar. Tracei um círculo, invoquei o demônio em mim. Convoquei legiões de poetas, de carrascos, detentores do sofrimento e do fim. Fiz um rito publicamente imundo. Difusamente estúpido. Porque ele não era nada. Ele era a minha piada. Era a ode ao descaso, ao fatalismo, ao acaso. Ele era apenas a...

Morte do Amor

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por Ana Marques ... matei o amor que me matava. Não houve bala, nem ruído. foi punhal no coração certeiro não desmanchei o cabelo e nem sujei o meu vestido ... matei porque estava na hora errada no dia suspenso, no fogo cerrado e no caminho do que serei era uma pedra, uma rocha, uma mata fechada e um abismo que atravessei ... matei porque esse amor era asfixia suas garras sangrando na minha camisa e toda aquela dor me atormentava como um romance suicida ora me enlouquecia, ora me dilacerava ... matei esse amor tresloucado matei esse amor sem palavra matei esse amor sem sentido matei, sem mexer no cabelo matei, sem sujar o vestido. (poema feito em 13/02/2015) Imagem: Lovedeath By VvBornOfDesirevV On DeviantArt

Fronteira

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Fronteira por  Ana Marques Existem palavras que a gente não diz e a liberdade é um ato falho. Meu coração na fronteira se perdeu mundos enfureceram em fogo e dor ... e não há cor no rosto que apague o que ficou esperando no tempo. Não há um dia em que eu não procure o rosto do fim do mundo dos limites que ficaram esquecidos de voltar. De mala na mão corpo coberto frio nos cabelos gelo no peito eu corro ruas cidades obscuras dias e noites sem lua à tua procura. A busca de um lar sem nunca encontrar. Imagem: Go , by CasheeFoo

Perdida

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Perdida por  Ana Marques … algo em mim se perdeu alma num beco, num breu tão fora de mim tão fora de si não sei mais quem sou porque todo esse movimento nem é pra fora ou pra dentro é um sacudir-se para ver se encaixa no lugar. Não há espaço pra esse desgosto Nem um rosto com tanto desconforto só um ai perdido no peito um tique caído e nervoso Só há um querer que já foi desmedido hoje é partido trêmulo e exposto. é o que seria, mas nunca será uma dor que não cessa de machucar um fim que não chega e um começo que se esqueceu de começar.

Meu amor

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por Ana Marques Meu amor, nunca fui tão dura contigo como durante o afastamento o tempo passado debaixo das nossas incertezas Fomos além de todas as inteirezas e assim fomos metade e mesmo quando grassavas ser a minha metade metade amor, metade sonho, metade paixão piscava um imenso não um buraco, um descaso, uma escuridão um nada que aconchegava minha metade solitária eu vivia os teus arroubos com tanta intimidade que me sentia sua sendo você mas era tanta coragem roubada tanta carne desprotegida tanta ganância, tanta ironia que me ficava eu: cabeça oca, alma vazia. Meu amor, nunca fui tão dura comigo quanto precisava para acordar dos seus sonhos destruir seus caminhos para recuperar o meu rosto e desenhar meu destino. Tão absorta estava de mim que me perdi nesses teus olhos e adiei os meus passos tão necessários para que meu esboço se tornasse retrato. Meu amor, não diz até mais mas eu fui ali recuperar esse eu essa alma que se rompeu não me espera acordad...

Tempestade

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Thunder-storm, by P-Delger Há tanta dor nesse peito pronta para estourar não tem tempo, não tem sossego é tempestade arrebentando no mar E eu que fui rocha vejo-me a mercê dessa tormenta em desatinos. Eu que já fui montanha deformei o corpo em erosão e detritos. Eu, que moldei-me em gelo, vi levantar-se o sol desfazendo-me. Não tem gelo que não se derreta Não tem pedra que não recue Não tem coragem que não esmoreça na sua quietude. Feito noite adentrou os meus sonhos Feito norte mudou o meu rumo. Minha existência em você. Na sua foz escondi os meus medos Desafiei destinos, tecendo receios e criei supernovas de sete tons. Não descobri, no entanto, os seus segredos. Entreguei o coração para dormir no seu peito. Minha vida esperando você. E na noite, sem o balançar dos meus ventos no vazio que deixei, enviou-me o seu mensageiro  ... Fiquei ali. Eu, a noite e o seu silêncio. (Há tanta dor nesse pei...

Menos nós.

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imagem: Ausência, por  d0nasd0gama Está tudo em nós nas linhas não escritas oriundas de sonhos (ir)realizáveis Está tudo aqui. Esperando o dia a noite a vida. Está tudo aqui. ...menos nós.

Ciclones

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Occhio del Ciclone - por HappyNeurosis Não venhas se não desejas. Mas não inventas ausências  para teu decoro. Se o toque parece confuso conserva-te mudo e eu espero. Não gasta teu verbo, teu sangue, teu credo com o que não queres desvendar. Não cria distâncias  para tuas idas que já vejo teus olhos perderem o foco em ciclones de ar.

Se

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imagem:  Zemotion ‎... e se realidade superar a fantasia como farei para que o distanciamento (prometido) supere a saudade (sentida)? ... e se o tempo carrasco dos intentos (tão nossos) magoar nossa vontade com a ausência? ... e se tudo se perder em dificuldades extremas? ... e se tudo ficar no se?

Encontro

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Eu não chamarei o teu nome  enquanto fores fogo  futuro.  Não acalmarei tua mão na minha  ... se o teu toque esti... Blog Bar do Escritor: Encontro :