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Não te falo mais nada, por Ana Marques

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Não te falo mais nada. Meu corpo não tem espaço para tanta pancada e meu fígado já falha da raiva que eu guardo. Não tenho voz para te acusar, não tenho sangue para me defender. Vivo dos desvios – às vezes rápidos e às vezes lentos – dos tapas que voam para todo lugar. Meu corpo sacode no ar, não é de alegria ou gozo. Sacode da surra que me espera ao final de um dia ruim. Que vida é esta? A igreja não responde. Resigno a mim mesma em orações que não faço. Não vou mais à igreja, não acredito em mais nada e dia a dia a vida segue sem cessar. Não cessam os socos, que às vezes chegam aos filhos. Filhos estes que também não param de chegar. Chega! Não te falo mais nada. A odisseia remonta o espetáculo. Retoma o palco e lá vou eu. É mais longa a sessão de porrada e quase por nada eu durmo no chão. O sangue se espalha, eu limpo e cansada, vou passando o pano no chão. A boca não abre de tão inchada, os dentes já moles reclamam dentista, comida, dignidade e um pouco de paz. Não tenho mesmo para...

A Bailarina

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"Olá, querido. O que faz aqui?" "Oi, como a senhora está?" Ela se animou visivelmente enquanto tagarelava. "Quer um beijo? Ah, mas você é tão jovem para ficar admirando uma mulher mais velha como eu! Que tal um autógrafo? Sou casada, sabe? E com um belo homem, muito inteligente e muito, mas muito ciumento. Me desculpe não corresponder a sua admiração, desculpe..." Ela sorriu para o espelho e o rosto fortemente maquiado sorriu de volta. Levantou-se e ensaiou passos de dança. Sem qualquer aviso, desabou na cadeira, como se estivesse muito cansada, e desatou a falar: "Dancei tantas vezes no teatro. A vida era boa, sabe? Meu coração se enchia de alegria com os movimentos e a admiração das pessoas. Eu era requestada, era amada! Nunca houve ninguém como eu. A pele tão bonita, o rosto formoso, o cabelo por todas copiado. Já te disse que meu marido era muito ciumento? Ele nunca me deixava sozinha! Aliás, onde será que ele está agora? O que será que aconteceu ...

Devolva-me, por Ana Marques

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Eu a via seguir por estradas insones. Correr de um lado para o outro, sem que nenhuma de suas palavras fizesse sentido para mim. Ela segurava flores imaginárias e soltava as borboletas que estavam presas no miolo amarelo. Acenava alegremente a noite que descia, chorava ensandecida para o dia que a iluminava. Ela vivia de trevas e odiava a luz. Suas refeições eram escuras e seus soluços infinitos. Ela me assustava. Sua voz sorria no escuro e eu ria junto. Nunca sabia se devia correr ou me esconder. Seus braços me envolviam e apertavam: o mundo lá fora era um lugar perigoso para nós . As vezes, aqueles mesmos braços me torciam e sufocavam: o mundo lá dentro tornava-se perigoso para mim . Ela recitava poemas sem sentido e contava histórias incríveis. Pintava borrões e eu podia ver a beleza nas suas tintas no fundo branco. Cantava alto quando estava triste, cantava alto quando estava feliz. Eu não conseguia alcançar a sua voz ou o seu espírito. E assim sempre me sentia sozinha. As vozes q...