Não te falo mais nada, por Ana Marques
Não te falo mais nada. Meu corpo não tem espaço para tanta pancada e meu fígado já falha da raiva que eu guardo. Não tenho voz para te acusar, não tenho sangue para me defender. Vivo dos desvios – às vezes rápidos e às vezes lentos – dos tapas que voam para todo lugar. Meu corpo sacode no ar, não é de alegria ou gozo. Sacode da surra que me espera ao final de um dia ruim. Que vida é esta? A igreja não responde. Resigno a mim mesma em orações que não faço. Não vou mais à igreja, não acredito em mais nada e dia a dia a vida segue sem cessar. Não cessam os socos, que às vezes chegam aos filhos. Filhos estes que também não param de chegar. Chega! Não te falo mais nada. A odisseia remonta o espetáculo. Retoma o palco e lá vou eu. É mais longa a sessão de porrada e quase por nada eu durmo no chão. O sangue se espalha, eu limpo e cansada, vou passando o pano no chão. A boca não abre de tão inchada, os dentes já moles reclamam dentista, comida, dignidade e um pouco de paz. Não tenho mesmo para...