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Letra: ferida exposta ao tempo Affonso Romano de Sant’Anna É forçoso dizer que me faz falta o poema que existe e nunca li, como se alhures brotassem coisas que não vi e que distantes, carentes, dependessem de mim. Algo como se o intocado fosse a sinfonia inacabada, mais: rasgada como o quadro nunca esboçado, perdido na abatida mão do artista. O ausente é uma planta que na distância se arvora e é tão presente quanto o passado que aflora. E a literatura, mais que avenida ou praça por onde cavalga a glória, é um monumento, sim, de dúbia estória: granito e rima, alegoria ao vento, lugar onde carentes e arrogantes cravamos nosso nome de turista: — estive aqui, desamado, riscando a pedra e o tempo expondo meu sangue e nome com o coração trespassado. Fonte: www.secrel.com.br/jpoesia Interpretação: Escolher um arcano, quando normalmente escolho Arcanos Maiores, é quase um desafio. Esse poema fala do imaginado e ainda não tocado , daquilo que se vê ao horizonte, sem que no horizonte se consiga...

Censura NÃO!

Observei a discussão que em alguns fóruns se formou a partir do tópico "Sexo Sujo" e achei deveras interessante. É sempre curioso notar como as pessoas não entenderam meu protesto, nem as minhas razões. Não estou protestando como pagã , ou como anti-cristã (por mais que tentem me impingir esse título). Não me interessa em nada a religião nesse caso, exceto que ela funcionou como agente censurador fora dos domínios ao qual ela pertence. Que os clérigos queiram impedir seus fiéis de ver uma exposição, ler um livro ou ver um filme, é problema deles. Impedir a livre expressão artística e, principalmente, o acesso a cultura baseado em valores que são absolutamente válidos apenas para aqueles que pertencem a essa religião é outra coisa bem diferente. Da mesma forma que a liberdade de culto é preservada, a liberdade de expressão e de pensamento também. Um objeto de arte, seja qual for a natureza dele, visa a contestação, a criação de um símbolo, visa questionar valores e criar novos...

Sexo sujo

O sexo só pode ser sujo. Não existe justificativa melhor do que essa... Se não o sexo, os orgãos sexuais são partes sujas dos seres humanos. Talvez fosse interessante considerar a idéia de começar a extirpar tanto os pênis quanto as vaginas que existem por aí. Talvez assim as autoridades religiosas se dessem por satisfeitas, porque além de extirpar a capacidade de pensar e agir livremente de seus "fiéis", agora deseja extirpar também o direito de todos de verem uma exposição - ou uma das peças - porque acredita que a mesma ofende sua crença. A exposição "Erótica - Os sentidos da arte", que deveria estar chegando à Brasília, foi cancelada. Além dos prejuízos financeiros para o CCBB - que pessoalmente eu agora quero que se exploda - existem os prejuízos que os apreciadores da arte em Brasília estão sofrendo. E tudo por causa da falsa moralidade cristã e da necessidade que esses religiosos têm de controlar a tudo e a todos, fazendo de suas contas bancárias nojentas um...

Frida Kahlo – Óleo sobre a vida

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Foi esse quadro que me comoveu. Haviam me falado sobre o filme e comentado sobre a pintora, mas nada havia me preparado para uma imagem dessas. A dor aqui não é apenas retratada, o quadro quase parece ter sido moldado no sangue de Frida. Esse quadro – A Coluna Quebrada - não foi pintado, foi arrancado. Admirar os quadros porém é uma tarefa quase impossível para quem não conhece a história. A biografia de Frida se entrelaça a tudo àquilo que ela produziu. Vida e obra não estão apenas conectadas, lendo e admirando percebemos que não existe linha de separação. Para não cair no abismo de uma dor insuportável, Frida transcendeu essa agonia pintando-a nas telas. ''Não estou doente. Estou partida. Mas me sinto feliz por continuar viva enquanto puder pintar.'' Contraiu poliomielite quando criança, aos dezoito anos sofreu um acidente que a deixaria meses na cama e traria toda sorte de infortúnios para sua vida: a perda do noivo, o uso de um colete de gesso, a impossibilidade de...

Desejo dialogando com Ausência, de Vinícius de Moraes

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Desejo Por Ana Marques Para que deixas morrer o desejo? De ver minha face ante a sua. Se a vê ainda que não esteja presente, em tuas entranhas dançando uma dança estranha feita de gestos , de amor e de prazer Ninguém pode notar, mas você me pode ver... Minha face roçando a tua... Madrugada nua. Em que danço dentro de você. Não... mesmo longe não morre o desejo. Porque desejo de carne... este tens ... que vem e vai. Mas o desejo do espírito, vive sem motivo, dentro das tuas entranhas Admirando uma dança, sem poder definir de onde vem, para onde partir. Me leva consigo, sem escolha. E parte... deixando tudo, mas leva minha face ante a sua. Observação: Nessa poesia, dialogo com o poema "Ausência", de Vinícius de Moraes. Quando o li, pela primeira vez, há 6 anos atrás percebi que existiam conexões, que poderia haver uma continuação. Não quero entrar com falsas modéstias ou me comparar a um poeta como ele, mas dialogar com a poesia sempre foi algo maravilhoso e que adorei fazer.

Moça com brinco de pérola

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Algumas pinturas nos despertam interesse, admiração, encantamento. Mas poucas causaram, pelo menos em mim, tal impressão de suavidade mesclada a um agradável mistério quanto a pintura intitulada Moça com brinco de pérola , do holandês Johannes Veermer. Bela, de uma tristeza quase sedutora, parece convidar à apreciação. É fácil passar horas olhando a perfeição do brilho que a pérola emite, que os olhos instigam, que a boca insinua. Vejo claramente, aqui, que a sensualidade pode ser completamente inocente e sugerir apenas que existe a possibilidade de, mas sem deixar nada claro. O quadro me fascina. Só não sei dizer se o fascínio que eu sinto foi criado a partir do filme, que eu vi antes de conhecer o quadro, ou se o filme me inspirou tanto enlevo porque me apaixonei pela pintura. Baseado no livro de Tracy Chevalier, que por sua vez o criou inspirada no mistério que ronda a identidade da moça que posou para Veermer nesse quadro e na sua expressão dúbia e enigmática, o filme é singular. O...

A ausência da Amada e a presença da Musa-Estrela

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Ausência Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face. Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos portos ...