sexta-feira, abril 28, 2006

Frida Kahlo – Óleo sobre a vida



Foi esse quadro que me comoveu.

Haviam me falado sobre o filme e comentado sobre a pintora, mas nada havia me preparado para uma imagem dessas. A dor aqui não é apenas retratada, o quadro quase parece ter sido moldado no sangue de Frida. Esse quadro – A Coluna Quebrada - não foi pintado, foi arrancado.

Admirar os quadros porém é uma tarefa quase impossível para quem não conhece a história. A biografia de Frida se entrelaça a tudo àquilo que ela produziu. Vida e obra não estão apenas conectadas, lendo e admirando percebemos que não existe linha de separação. Para não cair no abismo de uma dor insuportável, Frida transcendeu essa agonia pintando-a nas telas.

''Não estou doente. Estou partida. Mas me sinto feliz por continuar viva enquanto puder pintar.''

Contraiu poliomielite quando criança, aos dezoito anos sofreu um acidente que a deixaria meses na cama e traria toda sorte de infortúnios para sua vida: a perda do noivo, o uso de um colete de gesso, a impossibilidade de ter filhos, várias operações e uma eterna saúde frágil. Porém tudo, absolutamente tudo que viveu está retratado. Quantos artistas desnudam assim a alma e a dor?

Em seus quadros, as cores fortes e os simbolismos pessoais faziam par com uma realidade quase crua. Frida começou a pintar durante a convalescença do acidente, quando sua mãe pendurou um espelho no teto. Fosse para esquecer a sofrimento, ou para mergulhar nele, pintava compulsivamente. A maior parte de seu trabalho é composta de auto-retratos, em que ela buscava mostrar a si mesma e o momento que vivia: desde a sensação de estar aprisionada ao corpo até os abortos que sofreu.


"(E o que mais dói) É viver num corpo que é um sepulcro que nos aprisiona (segundo Platão) do mesmo modo como a concha aprisiona a ostra"

Os quadros de Frida me comovem.
Sua história de vida, sua luta para superar as vicissitudes, o amor pelo seu país e pelo seu marido (o muralista Diego Rivera), o inconformismo e principalmente, a forma que encontrou para transcender as próprias limitações, despertam minha admiração e ao mesmo tempo me emocionam. Assim como seus quadros. Para contar sua história, basta montar uma exposição.


Fosse para buscar a si mesma ou para expressar toda sua sensibilidade, Frida retratou-se no conjunto de sua obra. Poucos artistas se revelaram tanto. Poucos tiveram – como ela teve – na arte o seu maior conforto.

''Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.''

Fonte: Revista Época - http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT512470-1661,00.html

Quadros:
- A Coluna Quebrada, de 1944
- O pequeno Cervo, de 1946
- As Duas Fridas, de 1939

quinta-feira, abril 27, 2006

Desejo dialogando com Ausência, de Vinícius de Moraes


Desejo
Por Ana Marques

Para que deixas morrer o desejo?
De ver minha face ante a sua.
Se a vê ainda que não esteja presente,
em tuas entranhas
dançando uma dança estranha
feita de gestos , de amor e de prazer

Ninguém pode notar,
mas você me pode ver...
Minha face roçando a tua...
Madrugada nua.
Em que danço dentro de você.

Não... mesmo longe não morre o desejo.
Porque desejo de carne... este tens ... que vem e vai.
Mas o desejo do espírito,
vive sem motivo,
dentro das tuas entranhas

Admirando uma dança,
sem poder definir
de onde vem, para onde partir.
Me leva consigo, sem escolha.
E parte... deixando tudo,
mas leva minha face ante a sua.

Observação: Nessa poesia, dialogo com o poema "Ausência", de Vinícius de Moraes. Quando o li, pela primeira vez, há 6 anos atrás percebi que existiam conexões, que poderia haver uma continuação. Não quero entrar com falsas modéstias ou me comparar a um poeta como ele, mas dialogar com a poesia sempre foi algo maravilhoso e que adorei fazer.

Moça com brinco de pérola




Algumas pinturas nos despertam interesse, admiração, encantamento.

Mas poucas causaram, pelo menos em mim, tal impressão de suavidade mesclada a um agradável mistério quanto a pintura intitulada Moça com brinco de pérola, do holandês Johannes Veermer.

Bela, de uma tristeza quase sedutora, parece convidar à apreciação. É fácil passar horas olhando a perfeição do brilho que a pérola emite, que os olhos instigam, que a boca insinua. Vejo claramente, aqui, que a sensualidade pode ser completamente inocente e sugerir apenas que existe a possibilidade de, mas sem deixar nada claro.

O quadro me fascina.

Só não sei dizer se o fascínio que eu sinto foi criado a partir do filme, que eu vi antes de conhecer o quadro, ou se o filme me inspirou tanto enlevo porque me apaixonei pela pintura.


Baseado no livro de Tracy Chevalier, que por sua vez o criou inspirada no mistério que ronda a identidade da moça que posou para Veermer nesse quadro e na sua expressão dúbia e enigmática, o filme é singular. O roteiro primoroso respeitou a essência da história criada no livro, e alçou vôos além da cena típica de Hollywood. Em vez de vermos o típico drama em que uma criada é seduzida pelo patrão (e pelo seu mundo), encontramos o diálogo artístico entre duas pessoas que se compreendem através do mundo das cores. Griet, uma criada que posteriormente se tornará inspiração para Veermer, é capaz de enxergar além do branco das nuvens e perceber o cinza, o amarelo e o azul. Muitas cenas se dão com diálogos curtos entre os dois, como se pela arte eles conseguissem se entender e se comunicar, como quando Griet retira uma cadeira que fazia parte do cenário de uma das pinturas de Veermer e ao ser questionada responde apenas "Não parecia certo".

O mais fantástico porém é o respeito com que os personagens são tratados. Em vez de ser jogada na cama do pintor, Griet escolhe seus caminhos e (muitas vezes) se desvia das falsas acusações. Veermer não se torna um caçador desenfreado de mocinhas para enfeitar a sua cama e seus quadros, sendo tratado no filme como um artista cheio de criatividade, sensibilidade e... (não poderia faltar) problemas.

Por fim - filme, livro e a pintura - são bálsamos para mim. Todos eles estão repletos de luz e sensibilidade. E em dias de censura à arte (como no caso da atriz performática Márcia X no CCBB) e de uma renovada mediocridade social e política, poder ver o belo assim tão bem representado chega a ser um grande alívio.

quarta-feira, abril 26, 2006

A ausência da Amada e a presença da Musa-Estrela


Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

MORAES, Vinícius de. ANTOLOGIA POÉTICA.

A figura da Estrela desponta no poema de Vinícius de Moraes. Deixando de lado amor carnal (O Enamorado), o poeta faz da amada a sua musa. Abandonando a chance de conviver com o objeto de seu amor, ele esquece a cumplicidade (A Temperança) para viver da utopia. Vivenciando o sonho estático da visão perfeita do amor, ele opta pela fantasia em detrimento da realização do amor (o Sol). Sendo assim, inatingível e bela, a Estrela-Amada do poeta permanece eterna em sua memória e inalterável em seu coração.

O Sol e a irradiação do Amor


Soneto do amor total
Vicícius de Moraes


Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Rio de Janeiro, 1951
in
Novos Poemas (II)
in Livro de Sonetos
in Poesia completa e prosa: "Poesia varia"

Interpretação: O Sol - o grande Arcano do Amor - irradia nesse poema através da liberdade, da força, da paixão e do calor que esses versos possuem. Muitas vezes quem estuda o tarô tem dificuldade para encontrar quais arcanos falam de amor, e se prendem ao nome sugestivo do Arcano VI (Os Amantes ou O Enamorado), se esquecendo que aquele que retrata a união perfeita entre dois seres é o que mostra duas crianças perfeitamente integradas numa união que vai além do físico e do convencional. O amor é assim, tal como a simbologia expressa do Sol, ele arde num mistério eterno que não se sabe de onde vem ou para onde vai, mas que nos faz feliz de uma forma que apenas as crianças parecem saber ser: sendo.

O Mundo e os mundos infinitos


X
O segredo da Busca é que não se acha.
Eternos mundos infinitamente,
Uns dentro de outros, sem cessar decorrem
Inúteis; Sóis, Deuses, Deus dos Deuses
Neles intercalados e perdidos
Nem a nós encontramos no infinito.
Tudo é sempre diverso, e sempre adiante
De [Deus] e Deuses: essa, a luz incerta
Da suprema verdade.

XI
Nos vastos céus estrelados
Que estão além da razão,
Sob a regência de fados
Que ninguém sabe o que são,
Ha sistemas infinitos,
Sóis centros de mundos seus,

E cada sol é um Deus.

Eternamente excluídos
Uns dos outros, cada um
É universo.

Fernando Pessoa
Retirado de: Primeiro Fausto, Primeiro Tema, O mistério do Mundo. Versos X e XI.
Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/fpesso48.html

Interpretação: a chegada ao fim da Jornada é ao mesmo tempo recompensadora e frustrante. Estar no Arcano XXI - O Mundo - é perceber que como cascas de cebolas, existem inúmeros outros mundos a serem conquistados, vividos, encontrados. Chegar ao fim foi apenas uma outra forma de começar novamente.
Só nesse momento fica claro que a eterna briga entre o Louco ser o Zero ou o XXII é pura ilusão. O Louco está nas duas pontas mostrando que o Mundo não é o final, mas apenas uma ponte para novas e inesperadas descobertas.