quarta-feira, abril 30, 2008

Tributo das musas

Por Ana Marques

Musa: Pagaste?
Poeta: Paguei sim...
Musa: E o recibo?
Poeta: Recibo? Recibo não tenho.
Musa: Então pague. Em dinheiro.
Poeta: Não tenho dinheiro.
Musa: Azar...
Poeta: Azar?
Musa: Quem mandou querer ser poeta, sem ter como pagar?
Poeta: Entrega-me a inspiração!
Musa: Inspiração não responde ao grito, a loucura ou à fossa.
Poeta: Mas o que faço sem tua inspiração? Qual será minha sina?
Musa: Seja como os medíocres... escreva frases toscas.
Musa (rindo): E chama de poesia...

segunda-feira, abril 28, 2008

Bem-comportada

por Ana Marques

Sou uma fada
bem comportada
de pernas entreabertas
e de asa virada.

PS: Para Alice Ruiz. Musa, inspiração desse poema e poeta que leio com imenso prazer.

domingo, abril 27, 2008

Passos combinados

Por Ana Marques

Nossos passos combinavam.
Os atos se entretinham
em dias de descaso
sonhos me sorriram.

Os meus dedos na cama
corpo perdido no seu
suor: cheiro de vida
tempo que se encolheu

Vida fora da vida,
minutos não eram nossos,
a mentira transformista
merecia fim mais dócil...

Para quê fim mais dócil?
A transformista morria...
tempo roubado do fosso
da vida esmaecida

Tempo disse adeus
ao suor já sem vida.
O corpo perdido do seu,
dedos na cama vazia.

Sonhos se despediram
descaso desarmado.
Atos que nos fugiram
dispersaram nossos passos.

Nas ruas sem esquinas
seguindo ao fim da linha.
Buscando atalhos em ruas.
Atalho para ser sua...

ainda ser sua...

sábado, abril 26, 2008

Sou sim. Sou eu. Estou.

por Ana Marques

Sou o caminho, a verdade e a vida.
O caminho sem salvação.
A verdade na escuridão.
A vida na perdição.

Sou sim.

O caminho que não tem volta.
A verdade que vem à tona.
A vida que se esgota.

Sou sim.

O caminho no alto do monte.
A verdade refletida na fronte.
A vida nascida da fonte.

Sou eu.

Caminho um caminho de sombras,
maré da verdade quebrada em ondas,
vida que evapora em gotas.

Sou eu.

Sou eu o caminho que te dá arrepios.
Sou eu a verdade que permeia o destino.
Sou eu a vida em sono escurecido.
No caminho que te persegue...
Na verdade que te protege...
Na vida que te recebe...
Estou.

Sou sim. Sou eu. Estou.

quarta-feira, abril 23, 2008

Máscaras

Vou cozinhar no tacho
uma máscara de barro.
Refazer meu rosto
nos moldes do inferno.
Ver quem sou
e me esconder.
Mostrar nos meus traços
a quem devem temer.

Vou cozinhar no tacho
uma máscara de granito.
Esconder meu rosto
nos passos do destino.
Vou entrar nos meandros
do submundo conquistado,
encontrar Perséfone
e maldizer a morte.

Vou cozinhar no tacho
uma máscara de bronze.
Desfazer meu rosto
nos traços dos esquecidos.
Buscar o molde do meu rosto
no meu caos inicial.
Pescá-lo no lamaçal,
retirá-lo do fundo do poço.

Matem! Matem!
Matem as máscaras.
Retirem as máscaras!
Que elas não me servem
para nada.
Levem as máscaras
para o fundo do poço
que elas afundem
no lamaçal deste caos.

segunda-feira, abril 21, 2008

O Eu lírico, diálogos e vozes

Exercício da Oficina de Poesia (Portal Liberal) - Aula 2.

1) Um EU todo retorcido: Faça um poema em que você escreva seu nome próprio, como nos inúmeros exemplos aqui mostrados. Tente observar se ao escrevê-lo você está apresentando uma abordagem auto-crítica ou auto-celebratória, auto-piedosa ou cruel, ou seja, se está vendo o seu nome sob um prisma olímpico ou da inviabilidade.

2) Poema em vozes: Vale aqui soltar a imaginação. Escreva diálogos que ouviu na rua ou invente diálogos do modo que achar melhor... Não há nenhum problema se você quiser escrever até uma mini-peça (de no máximo duas páginas).

O poeta e dramaturgo alemão Heiner Müller tem vários trabalhos que ficam numa região indecidível entre o poema e o drama, como esse aqui, tão curto quanto belo:

PEÇA CORAÇÃO
Um- Posso pôr meu coração a seus pés.
Dois- Se não sujar meu chão.
Um- Meu coração é limpo.
Dois- É o que veremos.
Um- Eu não consigo tirar.
Dois- Você quer que eu ajude?
Um- Se não incomodar.
Dois- É um prazer para mim. Eu também não consigo tirar.
Um- (Chora)
Dois- Vou operar e tirar para você. Para quê que eu tenho um canivete. Vamos dar um jeito já. Trabalhar e não desesperar. Pronto – aqui está. Mas isto é um tijolo. Seu coração é um tijolo.
Um- Mas ele bate por você.
(Tradução de Marcos Renaux)

3) Monólogo dramático: Escolha um desses personagens abaixo citados e faça-o falar no poema:
CAPITU
RASKOLNIKOFF
SUPER-HOMEM
WOLVERINE
JOANA D'ARC
BRECHT
CHE GUEVARA
CARMEM MIRANDA
HAMLET
___________________________________________________________________

Bom, fiz a poesia do eu-lírico meio retorcido, diálogos e dar vozes à personagens. Não escolhi, exercitei todos. Poesia é isso também, exercício.

1)
Ana Cláudia. Muito prazer.
Não pergunte o restante do nome. Pra quê?
Anacláudia está bom, demais.
Mais que isso, é demais.
Demais, eu vou embora.
Não percebes a hora em que falas demais?

2)
Escolha (diálogo)

- Quero ver-te sozinha.
- Sozinha, por quê?
- Porque me irritas...
- Irritas-te comigo? Que fiz?
- Fez que tu existes e lembro...
- Lembro algo? Incomodo?
- Incomoda lembrar que te perdi.
- Perdeste. Fizeste uma escolha.
- Escolha? Que escolha deu-me a vida?
- A vida sabe. Ela nos deixa escolher.
- Escolher o que? Não pude.
- Não pôde. Eu perdoei. Esqueci.
- Esqueceste? Mas eu não esqueço.
- Não esqueces por quê?
- Porque poderia ser lindo.
- Lindo é o momento de hoje. Vai viver.
- Viver o que? Desperdicei tudo quando não te escolhi.
- Mas escolheste. Agora vive com tua escolha, ou...
- Ou...?
- Ou escolhe de novo.
- De novo? O que posso escolher agora?
- Agora escolha a mim.
- Não posso.
- Não pode? Por quê?
- Porque a vida me fez assim. Covarde.
- Covarde...! Então parte.
- Partir? Para onde?
- Para onde quiseres. Mas me deixa...
- Deixar-te? Como? Tu és minha vida.
- Vida? Pode ser... Mas não sou tua escolha.

3)
Diálogo de Capitu na solidão de Bentinho.

Sou inocente.
Dessa dor lembrarei.
Sou inocente,
repetirei.
Ouve?
Oh, Bentinho. Ouve-me.
Não magoa. Ouve-me!
Não julgas, veja!
Meus olhos ressacados
sempre foram teu respaldo.
Teu encanto amigo.
Bentinho!
Não me mandes embora.
Viverei à tua sombra.
A sombra da desonra
que não mereço.
Estás sozinho...
Bentinho...
Sou inocente.

domingo, abril 20, 2008

Oficina de poesia

Eu tenho um fraco por poesia.
E prosa, contos, romances... de lazer a autores "consagrados", na verdade eu tenho um fraco enorme por literatura.
Há poucos dias descobri um site fantástico, o Portal Literal. Lá tem algumas oficinas on-line que podem ser a diferença entre quem escreve e quem escreve BEM. Assim, bem MAIÚSCULO mesmo.

Iniciei a oficina de poesia esses dias. Falta de tempo contribuíram para que eu atrasasse a leitura. Até porque poesia não é algo que se aprenda correndo. Inspiração que traz uma poesia magnífica diretamente para a ponta do lápis, ou do teclado, é pura ficção. Poesia se faz com labor e muita dedicação.

Buenas... a oficina, na 1a. aula, sugeria um exercício. Inserir num poema de sua preferência, estrofes de sua autoria. Segue a poesia original e o resultado do meu exercício.

SEGREDO
Carlos Drummond de Andrade

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
__________________________________________________________________

PSIU.
Ana Marques


A poesia não fala.
Não fale com ela.
Sua voz é surda.
Muda.

O tiroteio está logo ali
ao alcance do seu ouvido.
Ouve? Ouvimos?
Não importa.

Impossível sonhar, o sonho sou eu.
Peixes escapam voando do mar
e os homens que andavam por ele, afundam
com pés de cimento.
Psiu.

Suponhamos que um deus poderoso
desse toda a face da terra
a ti, homem santificado.
Que faria tu?
Não faça.

__________________________________________________________________

Que tal? Vai valer a pena a oficina?

quinta-feira, abril 17, 2008

Perfeita mentira

Espiralando em mil pedaços
escorraçando a alma partida.
Minha crença numa missão
foi rechaçada na solidão:
ninguém chama, clama, precisa.

Espiralando fora do tempo
queria encontrar uma razão.
Me vi sozinha, sem destino.
Placas vazias demarcando o caminho
repleto de espaço vazio.

Eu não os vejo. Eu não enxergo.
Eu não suporto... e desatino.
(agora eu grito!)

Espiralando na vida alheia.
Mentiras, opiniões, que ninguém quer.
Importante me faço, mas não me sinto.
Importante quero, mas não consigo.
Grito venenos a quem aparecer.

Espiralando no meu passado.
Não busco erros, mas respostas.
Justificativas para minha insânia
quero vender minha ganância
como se fosse uma galhofa.

Eu sou perfeita. Estou acesa.
Repleta e plena.
(de quê? não sei.)

Espiralando, vida afora.
Olhar para dentro e ver o que?
Esqueço o tempo que eu jogo fora.
A vida que vivo, o meu agora
não tem sentido para viver.

Espiralando, espiralando...
volteando na luz e me queimar.
O que eu busco é a saída,
espiralar fora dessa mentira.
Não ter mentiras para contar.

Mentira? Mas que perfídia!
Eu sou perfeita. Repleta e plena.
(repetir, repetir... para acreditar)

quinta-feira, abril 10, 2008

Eu nego.

Estou cansado nesses dias.
Não posso mais enxergar,
nos meus sonhos, na minha vida,
uma esperança, uma magia...
qualquer coisa nesse ar.

Vou me enchendo de tristeza
e o meu copo não esvazia.
Essa sede que se abate,
essa dor, essa agonia...
Um repente, silencia.

Aumenta o som, baixa a cabeça.
Liga a dor, desliga a vida.
Que a frustação é tão imensa.
A solidão é tão sentida,
não sobra espaço para que eu exista.

Tanta dor, se não mereço...
Incompreensão, que eu não quero.
Se a frustração é o meu preço,
o vício é o meu remédio.
E eu mergulho, eu esqueço, eu reconheço.

E eu nego.

terça-feira, abril 08, 2008

Armadilha

Segui teus olhos em silêncio.
Teus passos pelo aposento.
Sentiu a minha perseguição.
Criei tua armadilha e
para ela caminhas
sem notar a própria perdição.

Conheço teus desejos íntimos,
cada edifício e abismo
para erguer ou atravessar.
Tua alma refletida em mim.
Teu sorriso é assim:
esperançoso como teu olhar

Notas em mim algo novo...
Um brilho em meu rosto
repleto de magia.
Meu sorriso vibra diferente.
As palavras vêm facilmente
carregadas de ironia

Não tenhas medo, a corda bamba
em que quero ver a dança
tem rede de proteção.
O circo está armado,
o espetáculo montado,
que os artistas entrem em ação

Somos livres, somos fortes!
Temos ao nosso lado a sorte!
Vamos representar!
Quero ver-te sorrindo no palco,
fingindo que não tem me desejado
Minta ! Quero te ver atuar !

Prove seu valor para o público.
Como és teimoso, forte, lúcido!
Que realmente podes me deter.
Mas não se admire ao final do espetáculo
quando estiver descansando em meus braços,
feliz por se render...

segunda-feira, abril 07, 2008

Estranho

Olá, estranho... que vai por entre a gente.
Eu digo olá, sem mesmo te conhecer.
Digo olá ao acaso desse dia quente
e sugiro teu nome sem saber porquê

Seus olhos brilham forte na distância.
Meu rosto destacado na multidão.
Será que você pode ver minha aliança?
Pois num relance eu vi teu coração.

Estranho, não diga olá ainda.
Não fale nada dessa nossa sina.
Os teus passos pesados intrigam,
a linha da sua testa me fascina.

Estranho, que me olha dentro dos olhos
e entre o rosto de tantos, outros tantos.
Estranho, estranho, enxergas no meu rosto
essa esperança e um quê de desencanto?

Ah, estranho... Somos ambos estranhos.
Meus olhos verdes, seus olhos castanhos.
Eu que te vejo sem te conhecer,
você que me vê sem me entender

Ah, estranho... estranha essa nossa química,
que uniu pessoas estranhas numa larga avenida.
Que fez de estranhas pessoas, dois amantes...
enxergando na distância duas almas suplicantes

domingo, abril 06, 2008

Revelações da Lua

O que será, como será?
A lua escura vai revelar?
Venha, entregue-se.
A deusa escura protege.
Venha, revele-se.

Abra seu coração.
A Lua Negra lerá
os meandros da canção.
A luz incindirá
o interior mostrará.

Lua negra, no teu reino
todos os nossos receios
estão nos assombrando.
Os fantasmas vagando
de fraquezas alimentando

No escuro, a força brilha.
A noite, os medos voam.
O horror permeia a trilha
e faz a verdade vir à tona,
na razão que nos abandona.

Na quietude noturna
o entusiasmo vai reagir.
Ouvimos a voz da lua
e temos nosso elixir,
instigando a prosseguir

Sigam, filhos faustos.
Sigam, filhas nuas.
Pobres incautos...
Em noite sem lua
a magia flutua.

Respondam, bruxos e bruxas:
seus olhos podem cintilar?
Em noites sem lua,
na falta do luar,
vocês ainda podem brilhar?

Na noite da lua sem luz
a determinação será testada.
Responda: sua força reluz?
Na loucura recriada
soltas, suas feras algemadas.

Não temam, meus filhos!
Meu poder está no ar...
Sou a lua sem brilho.
Sou a mãe a gestar.
Usem-me para se libertar!

Sou a força para renascer,
em tudo estou no começo.
Nutro os filhos a crescer,
os desavisados enloqueço.
Sou também o fim dos tempos.

sexta-feira, abril 04, 2008

Coração

Coração, que liberdade é essa?
Que busca é essa que te guia?
Coloca os teus pés na terra.

Mas que pés, minha mãe?
Eu só tenho asas.

Coração, pousa de volta.
Corta essas asas, retorna.
Que tão alto, cai e machuca.
A queda não avisa, é brusca.
Esquece essa ânsia, acorda!


Ah, minha mãe. Me deixa.
Não existem conselhos que parem minhas veias.

O sangue que corre é todo meu!
E ele foge, se eu desisto...
Ah, minha mãe, eu sou o que sinto:
pulso, coragem, vontade, instinto.


Coração, não foge da realidade.
Teu vôo é trágico, teu fim é verdade.
Não tens futuro nesse caminho infeliz!
Volta pro chão, esqueça essas asas!

Minha mãe, eu tentei. Eu juro.
Mas as asas são meu único futuro.

Coração, meu querido, ouça a voz da razão!
Esquece esses sonhos e essa ilusão.
Futuro só existe para quem se conforma.
Pousa no chão, não me assusta ou afronta!

Mamãe querida, me deixa voar.
Meu vôo é sem fim, meu destino está lá.

Não volto, não desço, não tenho retorno.
Prefiro cair a desistir do meu vôo.
Prefiro morrer na queda, que cair na mentira
de que a vida sem asas é a minha sina.

quarta-feira, abril 02, 2008

Senhora

Ouve, Senhora, meu apelo!
Minha ordem, minha súplica, meu desejo.
Crie em mim a sua força,
me recria e me destroça.
Abre o meu peito e ouve o lamento.
O som do animal que não enfrento
que deseja sair de mim.

Ouve, Senhora, eu enlouqueço!
De sonhos, de vida, de anseios.
Eu vivo a sua terra
enquanto broto, meu peito encerra.
Eu não nasço, não morro, portanto...
presa sem rumo, no limbo:
eu não crio, não temo, nem rio.

Ouve, Senhora, eu reconheço!
Sua presença, sua insistência e o meu temor.
Abre meu peito, eu insisto!
Liberta a euforia, eu não resisto.
Quero brotar, morrer, sair do limbo:
criar, partir, temer e rir.

Ouve, Senhora, meu canto e festejo!
De amor, de dor, alegria enfim.
Abriste meu peito e dele voou
um dragão sem destino e meu destino traçou.
Agora eu broto, nasço e morro por fim.
Sem medo, não temo: viver e partir.

terça-feira, abril 01, 2008

Força!

Forças demais!
Borbulhando dentro de mim...
Vai, vai, vai!
Vai explodir!

Segura força!
Ainda não estou pronta.
Para, para, para!
Antes que fique louca...

Ebulição total.
Transborda peito afora.
Sangue, sangue, sangue!
Trilha da aorta.

Segura peito!
Preserva: essa força é toda tua.
Rasga, rasga, rasga!
Dilacera, liberta a carne crua.